5 passos para discordar sem virar inimigo no escritório

Técnicas de mapeamento de argumentos ajudam a transformar brigas em trocas construtivas, mesmo em temas polêmicos como política ou inclusão

Esses são os tipos de conversas no ambiente de trabalho que podem desencadear discussões exaltadas entre funcionários, afirma Steven L. Franconeri, professor de gestão e organizações (cortesia) da Kellogg School, que estuda como se pode ter desentendimentos mais inteligentes e equilibrados.

Ele tem uma teoria do porquê do aumento dos desentendimentos carregados de emoção.

“Criamos o hábito de presumir que as divergências devem ser permeadas de raiva e ódio, e que a pessoa com quem discordamos é irracional ou está sendo propositalmente enganosa”, diz ele. “Precisamos aprender a tratar melhor das divergências”.

Apresentamos o Point Taken, um jogo criado por Franconeri que simula intervenções em conversas, com o objetivo de ajudar as pessoas a superar desentendimentos destrutivos.
Baseado na técnica de pensamento crítico de “mapeamento de argumentos”, o jogo utiliza peças octogonais, dinheiro fictício e missões colaborativas de verificação de fatos para ensinar as pessoas a terem desentendimentos saudáveis e produtivos, em vez de polarizadores e ineficazes.

Franconeri testou o Point Taken com funcionários em diversos contextos, incluindo uma empresa de capital de risco, uma organização sem fins lucrativos para jovens carentes e um grupo de oficiais do Exército dos EUA. Em todos esses casos, ele observou grandes melhorias na forma como as pessoas lidam com ou resolvem divergências entre si.

Mas não é preciso se ter a experiência desse jogo para utilizar suas regras. Eis aqui cinco princípios para discussões produtivas que você pode considerar usar em sua próxima conversa no trabalho.

Reformule o objetivo
Embora todos iniciemos conversas com nossas próprias informações, histórias, pontos de vista, preconceitos e pontos cegos, Franconeri observa que o objetivo de se conversar com alguém não é “vencer” ou convencer a outra pessoa de que você está certo.

Iniciar qualquer discordância com a intenção de converter a outra pessoa ao seu ponto de vista pode sinalizar que você não tem intenção alguma de ouvi-la.

“Essa é a receita para uma briga que não mudará a opinião de ninguém”, diz Franconeri . “Na verdade, essa abordagem pode afastar ainda mais as duas pessoas”.

De forma contrária, tenha como objetivo coletar informações, ampliar a sua própria perspectiva, dirimir preconceitos que possa ter e, simplesmente, aprender com a outra pessoa. Ao compreender a lógica de outra pessoa, pode ser um exercício interessante para desafiar sua própria lógica.

Franconeri acrescenta que estudantes de direito e analistas de inteligência são treinados para praticar esse hábito. Na verdade, esse treinamento é tão essencial para o pensamento crítico que ele pede a todos que jogam Point Taken para assinar um contrato não oficial declarando que não tentarão persuadir outra pessoa sobre seus pontos de vista.

“Se essa for sua intenção, você não está na mentalidade adequada para aprender e encontrar pontos em comum com outras pessoas”, diz ele. “Isso é explicitamente contra as regras do jogo”.

Regulação emocional do modelo
Quando se tem uma opinião forte sobre determinado assunto, é natural se emocionar ao falar sobre ele. No entanto, Franconeri aconselha as pessoas a resistirem tal impulso. Ficar cada vez mais enfático a respeito de algo não leva nenhum argumento para a frente e pode permitir que a irracionalidade se infiltre na conversa.

Ao contrário disso, faça um esforço consciente para manter a calma e se esforce para “considerar os dois lados da moeda”, concentrando-se nos pontos nos quais você e seu interlocutor concordam antes de explorar as divergências. “Isso acalmará seu cérebro emocional”, diz Franconeri , e convidará seu “cérebro cognitivo e intelectual a analisar os argumentos com maior clareza”.

Demonstrar esse comportamento para outras pessoas também as incentiva a imitá-lo. E se elas não o fizerem, a culpa é delas, não sua.

“Aliás, isso não é fácil”, acrescenta Franconeri. “É preciso muita inibição para conter as suas próprias emoções ao ouvir coisas com as quais não concorda. É preciso inibição para suprimir aquela resposta que está louco para expressar”.

Pode surgir solução quando se deixa as emoções de lado. Um exemplo disso: funcionários de uma organização sem fins lucrativos para adolescentes em situação de risco não conseguiam resolver uma discussão acalorada sobre seu programa de reforço escolar até que começaram a conversar sobre o assunto com calma.

“No fim, perceberam que a verdadeira discordância entre eles era apenas sobre um curso específico”, diz Franconeri. “Mas foi preciso tempo e controle das emoções para chegarem a essa conclusão”.

Concentre-se no problema, não na pessoa
Como recomendam especialistas em resolução de conflitos, trate a palavra “você” como tabu no contexto de uma discordância. Em outras palavras, não diga “você só pensa assim porque..”. ou “você acredita nisso porque..”.. Isso enfraquecerá seu argumento e dará a impressão de que você está atacando a outra pessoa.

De maneira semelhante, evite usar as palavras “sempre” ou “nunca”, uma vez que sugerem um pensamento tendencioso ou absolutista. Muitos líderes seniores são treinados para interpretar isso como um sinal de raciocínio falho, afirma Franconeri.

Mantenha o foco no problema, o que incentiva você e a outra pessoa a analisá-lo juntos. “Isso tira você daquele contexto de discussão acalorada à mesa durante uma refeição e o coloca em modo de mentalidade colaborativa”, explica Franconeri.

E se, durante a discussão, um fato citado por alguém for questionado pela outra pessoa? Em Point Taken, cada jogador recebe cartas de “checagem de fatos” que podem ser usadas para solicitar a verificação da veracidade de um argumento por meio de pesquisas online. É importante compartilhar a crença de que os fatos importam, afirma Franconeri.

“Trata-se de demonstrar respeito mútuo, mostrar que a outra pessoa importa e que a forma como ela pensa também importa”, diz ele. “Essa é a prioridade, e não tentar mudar a opinião dela sobre um determinado assunto”.

Desacelerar
Conversas, especialmente quando envolvem assuntos delicados, podem ser desafiadoras simplesmente porque temos que fazer muitas coisas ao mesmo tempo. É difícil formular um argumento, ouvir o de outra pessoa e refutar de improviso, especialmente quando recebemos informações novas e inesperadas. Além disso, nossa memória verbal é limitada.

“Você pode se lembrar das duas últimas coisas que disse e esquecer outras três”, diz Franconeri. “E em seguida você se lembra da última coisa que eles disseram e esquece de outras cinco anteriores”.

Em um mundo ideal, teríamos tempo para organizar nossos pensamentos antes de uma conversa especialmente acalorada. Em Point Taken, cada jogador anota os motivos pelos quais defende um ponto de vista antes de compartilhá-los com os outros jogadores.

Isso ajuda as pessoas a refletirem com mais calma e ponderação. Também ajuda reconhecer quando concordamos ou discordamos dos detalhes do argumento de outra pessoa.

No entanto, se não houver uma maneira prática de anotar as ideias, Franconeri oferece duas dicas para desacelerar a conversa. Primeiro, começar com a afirmação “então, se eu entendi direito..” antes de repetir o que ouviu permite que a outra pessoa se sinta ouvida, enquanto você tem tempo para absorver novas informações.

Segundo, fazer o papel de advogado do diabo, argumentando a partir do ponto de vista oposto, facilita a memorização e a compreensão da perspectiva da outra pessoa. Também permite que a outra pessoa adicione contexto ou esclareça sua posição.

“A cultura organizacional e o trabalho em equipe podem melhorar à medida que os funcionários aprendam a raciocinar com mais calma e cuidado”, diz Franconeri. “Com tempo para refletir, as pessoas tendem a perceber que seus colegas são, na verdade, em sua maioria, pessoas racionais com opiniões sensatas”.

Mantenha-se com a mente aberta e humilde
Procure iniciar uma conversa de modo de mente aberta, com curiosidade e humildade intelectual. Caso contrário, se alguém disser algo que você não entenda, poderá chegar imediatamente a uma conclusão errada. “Muitas vezes, presumimos que a falta de clareza da pessoa se deve apenas à falta de raciocínio ou a más intenções”, afirma Franconeri.

Ele recomenda pedir esclarecimentos sempre que necessário e certificar-se de que compreendeu completamente a opinião de alguém antes de expressar o seu ponto de vista. Por outro lado, quando lhe pedirem para esclarecer seu ponto de vista, evite fazê-lo de forma que possa soar ofensiva para a outra pessoa.

Em suma: esteja aberto às opiniões de outras pessoas e à possibilidade de a sua própria opinião estar errada.

Adotar uma postura humilde dá às pessoas a oportunidade de perceber quando tiveram suposições falsas sobre o ponto de vista de outra pessoa.

Algumas descobrem que a origem da discordância é algo simples ou insignificante, como diferenças na definição de um problema.

As rodadas de “Point Taken” frequentemente terminam com os jogadores concordando em discordar, enquanto identificam os pontos em que ambos concordam. É normal os jogadores descobrirem que concordam em muito mais coisas do que imaginavam inicialmente.

Essa abertura pode nos ajudar a identificar preconceitos inconscientes, em nós mesmos e nos outros, e a começar a questionar ou modificar nossos próprios pontos de vista com base no que aprendemos.

“É bom poder enxergar as coisas não em termos binários, mas em suas complexidades, e ser capaz de absorver outras perspectivas possíveis que sejam diferentes da sua”.

Por Por Brasília
Fonte Exame
Foto: LittleBee80/Thinkstock/Thinkstock