Entenda em 5 pontos as menções a Toffoli e a políticos no caso Master

PF concluiu perícia no celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e identificou menções a Toffoli e a autoridades com foro privilegiado

A PF (Polícia Federal) concluiu na quarta-feira (11) a perícia do material obtido nas operações que investigam o Banco Master e identificou mensagens do dono do Master, Daniel Vorcaro, com menções a políticos com foro privilegiado e ao ministro Dias Toffoli, relator do caso no STF (Supremo Tribunal Federal).

Preso em novembro de 2025, Vorcaro faz o uso de tornozeleira eletrônica e é investigado por fraudes financeiras bilionárias na gestão do Banco Master. A instituição é acusada de inflar artificialmente o seu balanço, o que resultou em prejuízos ao sistema financeiro.

Com os desdobramentos do caso, a PF identificou uma teia do Master sobre Brasília. Conforme mostrou a CNN com exclusividade, as mensagens analisadas no celular do empresário contêm uma “tempestade” de menções a políticos desde 2022, comparável à delação de executivos da Odebrecht no auge da Lava Jato.

Até o momento, apenas o ministro Dias Toffoli teve o nome revelado como um dos mencionados nas mensagens de Vorcaro. No entanto, as investigações da PF apontam conexões do banqueiro com outros integrantes dos Três Poderes. Entenda abaixo:

1. Pagamentos cifrados a Toffoli

As mensagens periciadas mostram menções de Vorcaro a pagamentos direcionados ao ministro Dias Toffoli, relator do caso.

A PF investiga se a transferência de recursos a Toffoli partiu da empresa que foi sócia de um fundo ligado ao Banco Master no Tayayá Resort, frequentado pelo ministro e que pertenceu aos irmãos dele.

Um fundo de investimento gerido por uma empresa citada no caso Master investiu R$ 4,3 milhões no resort. Atualmente, a família de Toffoli não está mais no quadro de donos do empreendimento.

No entanto, a condução das investigações por Toffoli tem levantado suspeita ainda antes de o quadro de sócios do resort — que já foi composto pelos irmãos do magistrado, Igor Luiz Pires Toffoli e José Eugênio Dias Toffoli — ser revelado.

Depois de assumir a relatoria do caso, Toffoli viajou para a Final da Libertadores, no Peru, no mesmo jatinho em que estava um dos advogados da defesa do caso do banco. 

Já em 2026, Toffoli determinou que o material apreendido pela PF na operação que investiga as supostas fraudes do Master fosse lacrado e enviado diretamente para a sede do Supremo.

Normalmente, as provas obtidas em operações ficam a cargo da PF. A decisão gerou forte reação na corporação.

Posteriormente, Toffoli recuou e autorizou o acesso aos documentos à PF, mas designou agentes por conta própria para acompanhar a perícia do material apreendido. 

2. PF pede suspeição de Toffoli

Depois de encontrar menções a Toffoli no aparelho telefônico de Vorcaro, a PF pediu a suspeição do ministro no caso, ou seja, que ele seja declarado suspeito para atuar como relator.

Compete agora ao presidente da Corte, ministro Edson Fachin, receber e processar o pedido. Fachin terá de decidir se há ou não conflito de interesse na atuação de Toffoli envolvendo o Master.

CNN revelou que, após ser informado pela PF, o presidente do Supremo pediu ao relator para que Toffoli se manifestasse sobre as menções encontradas pela perícia. 

3. Políticos com foro privilegiado

Além de Toffoli, a PF também identificou menções a políticos com foro privilegiado no celular de Vorcaro. Dentre as mensagens, há conversas com deputados e senadores desde 2022, incluindo pelo menos um presidente de partido político.

Embora os congressistas envolvidos ainda não tenham sido revelados, desde o início das operações, uma série de nomes veio à tona por suposto envolvimento com o Master.

Um deles é o do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA). O congressista afirma que participou da criação de um fundo para a construção de um condomínio em Trancoso (BA) e que Vorcaro manifestou interesse em integrar o projeto, mas que a transação não foi adiante.

Além dele, o líder do governo no Senado Federal, Jaques Wagner (PT-BA), também já confirmou que sugeriu ao Master o nome de Ricardo Lewandowski como consultor do banco.

Lewandowski admitiu que prestou consultoria ao banco logo após sair de seu posto no STF e antes de aceitar o cargo para ser ministro da Justiça do governo federal.

O próprio presidente Lula Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve com Vorcaro em um compromisso fora de sua agenda, em dezembro de 2024. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ainda na condição de diretor do Ministério da Fazenda, também participou do encontro.

Ainda em Brasília, Vorcaro também tinha uma relação com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). O empresário disse à PF que se reuniu mais de uma vez com o governador para tratar sobre a venda de ativos do Banco Master ao BRB (Banco Regional de Brasília), banco público ligado ao governo distrital.

No Rio de Janeiro, a Rioprevidência, fundo de previdência do estado sob a gestão do governador Cláudio Castro (PL), investiu R$ 1 bilhão no Banco Master. No Amapá, o fundo estatal Amprev (Amapá Previdência) também investiu no banco.

As conexões de Vorcaro no cenário político nacional se estendem até ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Em 2022, o empresário Fabiano Zettel foi o maior doador das campanhas eleitorais de Bolsonaro e de Tarcísio. No total, ele doou mais de R$ 5 milhões para os então candidatos.

Zettel é cunhado de Vorcaro e também foi alvo de operação da PF que investiga o Master.

No Supremo, também há a suspeita de envolvimento por parte do ministro Alexandre de Moraes.

Em dezembro, o jornal O Globo publicou reportagens que revelaram um contrato de R$ 129 milhões do Banco Master com a esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes.

O jornal afirmou ainda que Moraes teria procurado o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ao menos quatro vezes para tratar de interesses em favor do Banco Master.

4. Impacto político e judicial

Com a citação de parlamentares, fica praticamente descartada a possibilidade de o caso Master sair do STF e descer para a 1ª instância, além de gerar uma nova escalada na crise política em torno do assunto.

O foro especial ou foro privilegiado determina que autoridades públicas sejam julgadas por tribunais superiores por crimes cometidos no exercício do mandato.

A perícia que revelou as mensagens citando autoridades com foro privilegiado abre novas frentes de investigação no caso.

Além das operações conduzidas pela PF, há uma pressão por parte de congressistas para que seja instalada uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar o caso.

Um pedido para instalar a CPI já foi protocolado e, somado a isso, a CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado montou um grupo de trabalho para tratar do tema.

5. Reação da defesa e de Toffoli

Vorcaro se posicionou sobre o vazamento da informação de que as mensagens citavam Toffoli e outras autoridades.

Segundo a defesa do banqueiro, o vazamento “seletivo” de informações “acaba por constrangimentos indevidos, favorecer ilações e a construção de narrativas equivocadas, além de prejudicar o pleno exercício do direito de defesa”.

“O respeito ao contraditório e ao devido processo legal é condição essencial para a correta apuração dos fatos. Tudo o que se espera dos responsáveis pela investigação é que exerçam suas atribuições de forma isenta e imparcial, por se tratar de representantes do Estado com papel fundamental para a democracia”, diz a nota.

O ministro Dias Toffoli também se manifestou. O magistrado rejeitou a possibilidade de deixar a investigação neste momento.

Em nota divulgada por seu gabinete, disse que a PF não tem legitimidade para pedir sua suspeição e que as menções encontradas são apenas “ilações” desconexas da realidade.

Quanto às mensagens sobre supostos pagamentos cifrados, a CNN revelou que Toffoli disse a interlocutores e ao presidente Edson Fachin que é sócio da empresa com seus familiares. O ministro acrescentou que declarou à Receita Federal os dividendos provenientes da venda da participação da companhia a um fundo ligado a Vorcaro.

Em outro comunicado, Toffoli admitiu ser sócio da Maridt. A empresa, ligada a familiares dele, vendeu uma participação no Resort Tayaya ao Fundo Arleen, que tem ligação com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O ministro diz ainda que desconhece o gestor da Arleen e que nunca manteve relação de amizade, “muito menos amizade íntima”, com Vorcaro. O ministro acrescentou ainda que jamais recebeu qualquer valor do banqueiro ou do cunhado dele, Fabiano Zettel.

Por Por Brasília
Fonte CNN Brasil
Foto: Andressa Anholete/STF