As principais decisões políticas para a formação das chapas que concorrem às eleições sempre ocorrem na última hora antes do registro na Justiça Eleitoral, como um quebra-cabeças em que as partes para se somarem dependem de arranjos que podem mudar todo o desenho. Mas neste ano há indefinições que, a depender de para onde se encaminhem, podem alterar a força dos principais candidatos ao Governo do Distrito Federal e ao Senado.
Na semana passada, a renúncia do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) da candidatura ao Senado mexeu com o xadrez político. Um outro ingrediente que também terá impacto é a decisão a ser tomada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), favorita nas pesquisas de intenções de votos, sobre concorrer ou não ao Senado. Entre os projetos ao Palácio do Buriti, há uma incerteza em relação à viabilidade jurídica da candidatura do ex-governador José Roberto Arruda (PSD), que defende a elegibilidade com base na Lei Complementar 219/2025, que unificou o prazo de inelegibilidade para 8 anos e alterou o início dessa contagem para o momento da condenação por órgão colegiado, o que encurta o tempo total de afastamento político. O prazo máximo passa a ser de 12 anos em casos de condenações em temas conexos.
Mas as novas regras, que alteram a Lei da Ficha Limpa, são contestadas na Justiça, por meio de ação direta de inconstitucionalidade a ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), já com dois votos pela procedência parcial — da ministra Cármen Lúcia, relatora, e do ministro Luiz Fux. Um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes suspendeu o julgamento em plenário virtual e a Rede Sustentabilidade, partido autor da ação, pede que o presidente do STF, Edson Fachin, julgue o processo cautelarmente como forma de dar segurança jurídica às eleições. Mesmo que a dúvida persista até as eleições, no registro das candidaturas a Lei Complementar 219/2025 será interpretada juridicamente pela primeira vez, caso a caso. Por isso, a incógnita sobre a candidatura de Arruda.
Os destinos de Ibaneis, Michelle e Arruda são importantes porque esses políticos estão bem posicionados nas pesquisas ou exercem grande influência no quadro político. Por isso, essas decisões são aguardadas. O ex-governador Ibaneis já anunciou que está fora do páreo, mas ainda há uma expectativa sobre como ele vai se manifestar nas eleições, se vai apoiar candidatos e tentar atrapalhar adversários e até mesmo se concorrerá a uma vaga de deputado federal.
Mas a 11 semanas das eleições de 2026, a definição não vai demorar. Partidos se articulam em busca das melhores alianças e nominatas até o prazo limite das convenções partidárias, que vão ocorrer entre 20 de julho e 5 de agosto. Especialistas ouvidos pelo Correio destacam que enquanto não acontecerem as convenções e registros de candidaturas, há margem para recomposições.
“É normal ainda estar indefinido, esse é um cenário que vemos em outros estados também. As cabeças de chapa já estão definidas, mas as articulações para a escolha dos vices dependem, normalmente, de alianças com outros partidos, o que pode gerar conflitos internos e, consequentemente, tornar o processo mais demorado”, avaliou o mestre em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB), Ariel Calmon.
A cientista política pela UnB, Teresa Starling, reforça que as indefinições são normais. “As eleições locais não acontecem isoladas, elas são muito influenciadas pela disputa presidencial, pelas estratégias dos partidos nacionais e pelas negociações entre lideranças que têm peso para além do DF. Então, há uma engenharia política que costuma demorar mesmo, porque envolve cálculo eleitoral, composição partidária, tempo de televisão, financiamento, palanque nacional e acomodação de interesses locais”, analisou.
Cenários
Para o Governo do Distrito Federal (GDF), a atual governadora Celina Leão (PP) é uma das pré-candidatas. O vice dela será o ex-secretário da Casa Civil Gustavo Rocha, do Republicanos, que disputará uma eleição pela primeira vez. O Progressistas, de Celina, está federado com o União Brasil, que conta com um deputado distrital, Eduardo Pedrosa. O Republicanos também é o partido da senadora Damares Alves, única do DF que tem mais quatro anos de mandato pela frente, e aliada política da governadora. A legenda marcou a convenção para 31 de julho no DF.
O ex-deputado distrital e ex-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Leandro Grass, vai disputar novamente o GDF, desta vez pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Apesar de já ter realizado um evento de lançamento da pré-candidatura de Grass e de Érika Kokay para o Senado, a legenda ainda não definiu a data da convenção, pois ainda trabalha para definir o (a) candidato (a) a vice. No momento, estão na mesa dois nomes: Dora Gomes, indicada pelo PV, partido pelo qual Grass concorreu ao GDF em 2022, e Tetê Monteiro, nome indicado pelo PSol.
O Partido Socialismo e Liberdade (PSol) está federado com a Rede e tem convenção marcada para 25 de julho. A legenda vai lançar Fábio Félix à Câmara Federal e Max Maciel à reeleição como distrital. “Além destes, lançaremos Keka Bagno e outros nomes à CLDF, como Michel Platini, Patty Ramiro, Romário Leal e Natália Matias”, disse a presidente do PSol-DF, Giulia Tadini. A união desses partidos com a federação PT-PCdoB e PV ampliará o apoio para a eleição da senadora Leila Barros (PDT-DF) à reeleição.
Diferentemente das outras unidades da federação, no DF o PT não está junto com o PSB, que lançou o ex-presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e ex-interventor federal da segurança pública no DF, Ricardo Cappelli, como pré-candidato ao GDF. Ambos os partidos convidaram o outro para ocupar a vice, mas os convites não foram aceitos. Segundo o presidente regional do PSB, Rodrigo Dias, a convenção deve acontecer no dia 25 de julho. O partido lançou dois ex-governadores como pré-candidatos a deputado federal: Rodrigo Rollemberg e Cristovam Buarque.
“Dialogamos com todos os partidos do nosso campo e também com outras forças políticas, como o Solidariedade, por intermédio do ex-senador Reguffe, e o PSDB, por intermédio da deputada distrital Paula Belmonte”, disse Rodrigo Dias em entrevista ao CB.Poder na última semana.
A especialista Teresa Starling ressaltou que ainda há tempo para o diálogo entre PSB e PT. “Formalmente, enquanto não houver convenção e registro de candidatura, sempre existe margem para recomposição”, destacou. “O PT e PSB têm caminhado separados no DF há um tempo, embora nas últimas eleições a candidatura do PSB ao governo tenha sido retirada já com a campanha em andamento para apoiar a candidatura de Leandro Grass. É possível que as esferas nacionais desses partidos possam atuar no sentido de viabilizar uma parceria já no primeiro turno”, completou o professor de ciência política da UnB, Lucio Rennó.
PL embaralha disputa
O Partido Liberal (PL) lançou duas pré-candidatas ao Senado pelo DF: a deputada federal Bia Kicis e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. A saída de Michelle da presidência do PL Mulher e a possível desistência de disputar o Senado pode embolar a disputa no DF, uma vez que ela despontava como favorita nas pesquisas e teria uma vaga praticamente garantida.
Em entrevista ao CB.Poder na última semana, a governadora Celina Leão afirmou que acredita na candidatura de Michelle ao Senado. “Sempre falo com ela e acho que é muito importante a participação de mulheres. Em todas as pesquisas, colocam-na em primeiro lugar. Então, acho que isso é realmente algo de que ela não pode abrir mão”, afirmou.
Celina afirmou querer três mulheres na chapa majoritária: ela, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis. “Isso é emblemático. Por parte da oposição, serão duas mulheres ao Senado. São projetos totalmente diferentes, mas que têm representatividade feminina”, destacou. A desistência de Ibaneis facilita a composição de Celina com as duas pré-candidatas do campo bolsonarista. Até então, ela tinha um compromisso político com o MDB de apoiar o ex-governador como candidato ao Senado.
A convenção do PL deve acontecer no início de agosto, ainda sem data definida. Para o GDF, o partido apoia Celina Leão, conforme a presidente do PL-DF, Bia Kicis, tem declarado, embora o senador Izalci (PL) tenha dito que também quer concorrer. Mas essa expectativa não encontra apoio em nenhum dirigente do partido.
Reeleição
Assim como Izalci, a senadora Leila do Vôlei (PDT) encerra o mandato no Senado. Ao Correio, o Partido Democrático Trabalhista (PDT) informou que, para o governo, apoia a união do campo progressista. Além de Leila, a legenda vai lançar nomes experientes para a disputa às Câmaras Legislativa e Federal, entre eles, a ex-superintendente do Hospital Universitário de Brasília (HUB), Fátima Sousa, que vai concorrer a uma cadeira de deputada federal, e o ex-deputado distrital Joe Valle, que vai tentar voltar à Câmara Legislativa também pelo PDT.
“O PDT está no processo de tratativas. Temos conversado muito com a chapa do Grass e do Cappelli, mas temos uma expectativa muito grande de organizar isso. O objetivo é construir uma frente ampla no DF. Existe, também, um componente nacional que tem que ser levado em consideração. Essas tratativas com os dois partidos (PT e PSB), têm conseguido se alinhar em outros estados e caminhar juntos. A minha expectativa é de que isso aconteça aqui (no DF) também. O que sabemos é que muitas vezes isso é decidido nos 45 do segundo tempo”, disse Leila em entrevista ao CB.Poder nesta semana.
MDB e Ibaneis
Com a reviravolta na candidatura de Ibaneis, o MDB vai reivindicar outro espaço na chapa majoritária, uma vez que tinha espaço importante com a disputa ao Senado. “O cenário está aberto”, afirma o presidente da Câmara Legislativa, Wellington Luiz (MDB), que é também presidente regional do partido
Com cinco deputados distritais na atual legislatura, o MDB busca ampliar ainda mais a base. Pelo menos três ex-secretários do GDF se desincompatibilizaram para concorrer às Câmaras Federal e Distrital pela legenda do ex-governador: José Humberto Pires, Marcela Passamani e Hélvia Paranaguá. A convenção do MDB está agendada para acontecer dia 1º de agosto.
Outra ex-secretária que vai disputar a Câmara Legislativa é Ana Paula Marra. Ela se filiou ao Podemos e levou junto Mayara Noronha, ex-primeira-dama do DF e amiga pessoal, que pode concorrer a um cargo de deputada federal. A Convenção do Podemos-DF está marcada para acontecer entre os dias 1º e 5 de agosto. Hoje, o partido integra a coalizão liderada pela governadora Celina Leão e ainda não formalizou federação com outras siglas. Atualmente, o partido conta com o distrital Robério Negreiros.
“Os próximos 30 dias serão decisivos para definir as coligações e o futuro do partido no Distrito Federal, pois estamos confiantes numa nominata para fazer três deputados distritais, dois deputados federais, além de no mínimo uma suplência”, destacou o presidente do Podemos-DF, Cristian Viana.
Centro-direita e ultraesquerda
A deputada distrital Paula Belmonte (PSDB) é pré-candidata ao GDF. O diálogo para a composição da chapa majoritária ainda está em curso. A parlamentar tem conduzido diálogos para construção do projeto. Segundo ela, o candidato a vice pode ser um nome do próprio PSDB, da federação Solidariedade-PRD ou de outros partidos. Belmonte tem trabalhado também para ampliar a participação feminina nas chapas, para além do cumprimento do percentual mínimo. A convenção do PSDB está marcada para o dia 1º de agosto.
“O PSDB fez um trabalho para que a gente pudesse fazer afiliações de muitas mulheres. Vamos praticamente conseguir ter 50% de mulheres candidatas. Estamos conversando com alguns políticos que são importantes para nós, como o Reguffe”, afirmou Paula em entrevista ao CB.Poder, nesta semana.
NO PSD, Arruda trabalha para reafirmar a candidatura, enquanto aguarda a viabilidade legal do lançamento da candidatura ao GDF. O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, convidou o empresário e presidente da legenda no DF, Paulo Octávio, a disputar uma vaga de senador. No entanto, o empresário ainda não decidiu se vai aceitar o convite.
“As pesquisas de intenção de voto, o desenrolar dos fatos associados ao BRB e ao escândalo do Banco Master e a situação jurídica da candidatura de Arruda serão importantes nas próximas semanas para a definição das chapas. O cenário ainda está aberto e rearranjos são possíveis”, opinou o professor de ciência política da UnB, Lucio Rennó.
O partido Novo lançou o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF) Kiko Caputo como pré-candidato ao GDF. O partido lançará um nome para o Senado: o desembargador aposentado Sebastião Coelho. A convenção do Novo-DF será em 1º de agosto.
A professora Samara Mineiro é a pré-candidata da Unidade Popular (UP) ao GDF. A convenção será em 23 de julho. Para o Senado, o pré-candidato é o professor Guilherme Amorim.
O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) também lançou um professor como pré-candidato ao GDF, Robson Raymundo da Silva, que concorreu ao cargo eu 2022.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Ed Alves/CB












