Faço uma pergunta para mim mesmo em momentos importantes da minha vida.
Não é “e se der errado?”. Também não é “será que estou preparado?”.
A pergunta é mais desconfortável: e se nada mudar? E se tudo continuar como está?
Curiosamente, sempre ouvi que as pessoas têm medo da mudança. Hoje já não tenho tanta certeza. Depois de anos trabalhando com executivos, empreendedores e profissionais em momentos decisivos de suas carreiras, comecei a perceber outro padrão.
Quando alguém diz que tem medo de mudar de emprego, de abrir um negócio, de encerrar uma sociedade ou de começar uma nova fase da vida, normalmente esse não é o verdadeiro medo. O verdadeiro medo aparece quando fazemos a pergunta seguinte.
“E se você continuar exatamente onde está pelos próximos anos?”
É impressionante como essa hipótese costuma provocar mais angústia do que a própria mudança.
Mudar assusta, claro. Mas permanecer também. E, dependendo do momento da vida, permanecer assusta mais.
Posso dizer isso olhando para a minha própria história. Em alguns momentos, abandonar uma posição confortável parecia uma decisão irracional, empreender parecia arriscado, começar de novo parecia ainda mais arriscado. Mas existia um risco que eu considerava maior do que todos esses.
O risco de descobrir, anos depois, que eu havia permanecido numa vida que já não fazia sentido apenas porque tive medo de mudar. Essa possibilidade sempre me aterrorizou.
Aliás, continuo achando que deveria aterrorizar qualquer pessoa. Não porque toda mudança seja boa, mas porque nenhuma vida melhora apenas pela passagem do tempo.
O tempo amadurece pessoas que evoluem. Para quem permanece imóvel, ele apenas envelhece.
A oportunidade que envelheceu
Na carreira, esse fenômeno também é visível. Conheço profissionais extremamente competentes que passaram anos esperando que o chefe mudasse, que a empresa e o mercado melhorassem, que a economia decolasse, que aparecesse uma oportunidade mais bacana. Esperaram tanto que, sem perceber, a oportunidade que envelheceu foi a deles.
O mercado não costuma punir quem muda: pune quem deixa de evoluir. Empresas vivem exatamente o mesmo dilema. As organizações que desaparecem raramente são aquelas que mudaram demais. Na maioria das vezes, são aquelas que insistiram em proteger um modelo que já não respondia com resiliência.
Na vida pessoal acontece algo semelhante. Relacionamentos deixam de florescer quando ninguém cresce. Nossa saúde piora quando adiamos pequenos hábitos durante anos. Nossa capacidade de aprender diminui quando confundimos experiência com repetição.
A estagnação é silenciosa. Ela não chega fazendo barulho: chega oferecendo conforto. E talvez seja exatamente por isso que seja tão perigosa.
Hoje enxergo o medo de uma forma diferente. Quando uma decisão importante me provoca um frio na barriga, já não interpreto isso como um sinal para recuar. Interpreto como um sinal de que provavelmente estou diante de uma oportunidade de crescimento.
O medo da mudança pode ser um excelente conselheiro. Ele nos obriga a estudar melhor, planejar melhor, ouvir mais, refletir mais.
O problema nunca foi sentir medo. O problema é deixar que ele nos convença de que permanecer é sempre a alternativa mais segura. Nem sempre é. Aliás, muitas vezes é justamente o contrário.
Por isso, quando alguém me diz que está com receio diante de uma grande mudança, costumo devolver apenas uma pergunta.
Você tem mais medo da mudança… ou de descobrir, daqui alguns anos, que sua vida permaneceu exatamente igual?
Quanto a mim, a resposta está clara. Continuo sentindo medo das grandes mudanças. Mas existe uma possibilidade que me assusta infinitamente mais.
A ideia de olhar para trás e perceber que a vida passou e eu permaneci exatamente no mesmo lugar.
Fonte exame
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