O poder da cadeira vazia

Cargos a serem preenchidos nas instituições brasileiras revelam o valor político da espera; uma cadeira vazia transforma-se numa promessa disponível

Duas diretorias do Banco Central brasileiro estão vagas desde janeiro, sem que Lula tenha apresentado nomes. No Supremo Tribunal Federal, a rejeição de Jorge Messias pelo Senado, em abril, prolongou outra ausência, enquanto órgãos que fiscalizam o mercado financeiro e a concorrência também acumulam lugares vagos. São funções das quais dependem decisões que afetam empresas, investimentos e a vida de milhões de pessoas.

Cada uma destas cadeiras tem uma história, e seria confortável demais atribuir todas as ausências à mesma vontade. Há escolhas que o Executivo adia, candidatos que o Senado rejeita e negociações que se arrastam. Mas o resultado permite perceber uma forma de exercer poder que recebe menos atenção do que os discursos: controlar o tempo de uma decisão pode ser tão importante como determinar o seu conteúdo.

Qualquer pessoa que tenha esperado por uma autorização conhece essa desigualdade. De um lado está quem precisa de uma resposta para organizar a vida; do outro, quem pode deixar o assunto para a semana seguinte. Quando essa relação chega ao centro do estado, a espera passa a ter valor político, porque a urgência de uns melhora as condições de negociação dos outros.

O Senado tem legitimidade para examinar e rejeitar uma indicação presidencial, e o presidente responde pelos nomes que escolhe e pelos que demora a apresentar. A qualidade das instituições depende desse escrutínio. O problema surge quando a demora se torna vantajosa para os negociadores, mesmo enquanto prejudica o funcionamento do órgão que deveriam servir.

Nessas circunstâncias, uma cadeira vazia transforma-se numa promessa disponível. Pode entrar num acordo futuro, aguardar uma maioria mais favorável ou aumentar a pressão sobre quem precisa de a preencher. Para os participantes na negociação, conservar a possibilidade de decidir amanhã pode valer mais do que resolver o problema hoje.

O custo dessa escolha fica disperso pelo país. Uma empresa espera, um investimento é revisto, uma decisão acumula-se sobre outras que já estavam pendentes. Cada atraso parece pequeno quando observado de Brasília, mas, para quem depende dele, o calendário continua a cobrar salários, juros e compromissos.

A eleição de domingo também escolherá 54 senadores e os 513 deputados federais. Esses votos ajudarão a determinar as condições em que o próximo presidente poderá governar, embora a disputa pela Presidência concentre as atenções. A capacidade de mandar e a capacidade de fazer esperar serão distribuídas na mesma eleição.

Uma cadeira vazia pode parecer um sinal de que nada está a acontecer, sobretudo num país habituado a reconhecer o poder pela presença de quem o ocupa. Mas há sempre alguém a ganhar tempo enquanto outros o perdem, e o estado pode continuar sentado nessa ausência muito depois de os brasileiros terem ido votar.

Fonte CNN Brasil
Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil