Pessoas disciplinadas não têm mais força de vontade. Elas precisam de menos dela, diz especialista

Autor de livro sobre sistemas explica como usar ambiente, prazos, pessoas e dinheiro a favor das suas metas

A maioria das pessoas atribui as metas abandonadas à falta de força de vontade, como se quem tem sucesso contasse com uma reserva de autocontrole que os outros não têm. Para o escritor e coach americano Ben Meer, a explicação é outra. Quem parece disciplinado depende menos da força de vontade e mais de limites criados com antecedência, que tiram as tentações do caminho antes de elas aparecerem.

A ideia está em seu novo livro, How to Be Good at Life (Como ser bom na vida, em tradução livre), lançado em 6 de outubro nos Estados Unidos, cujo trecho foi publicado pela CNBC Make It. Meer, que escreve a newsletter semanal System Sunday, sobre produtividade, compara a força de vontade a uma reserva de emergência: útil quando necessária, mas cara demais para cobrir as despesas do dia a dia.

Disciplina que parece talento é, na verdade, planejamento
O autor usa um exemplo comum. Aquele amigo que nunca tem problemas com alimentação não resiste ao doce na bancada depois de um dia exaustivo. Ele simplesmente não tem doce em casa, e guarda o autocontrole para os imprevistos, como os bolinhos que alguém leva para o escritório.

Segundo Meer, o segredo é investir força de vontade uma vez só para montar um sistema que torne o esforço futuro desnecessário. Em vez de decidir o jantar todas as noites, planejar as refeições da semana. Em vez de contar com a própria resistência às notificações, configurar bloqueadores de aplicativos no horário de trabalho. Em vez de depender da motivação para poupar, programar transferências automáticas para a conta de investimentos.

Ele chama esses limites de restrições escolhidas: regras que a pessoa define para si mesma, e não impostas por outros. O livro as divide em quatro tipos.

  1. O ambiente decide por você
    Tênis esquecido no fundo do armário vira uma corrida a menos. Aplicativo de transporte na tela inicial do celular vira uma corrida de carro no lugar do ônibus. Para Meer, o espaço ao redor trabalha a favor ou contra as metas, e as pessoas tendem a seguir o caminho que oferece menos resistência.

A proposta é organizar o ambiente para que a boa escolha seja fácil e a ruim, trabalhosa. Ele cita uma profissional que apagou as redes sociais do celular e passou a acessá-las só pelo computador, o que acabou com a rolagem automática ao longo do dia. O próprio autor tirou as pilhas do controle da TV e as guardou do outro lado da casa. O pequeno incômodo transforma um reflexo em uma decisão.

Para quem estuda ou está começando a carreira, a lógica vale para deixar o celular em outro cômodo durante a leitura ou abrir o material de estudo antes de abrir o e-mail.

  1. Prazo curto cria urgência
    Sem prazo, as tarefas se arrastam. Meer cita a Lei de Parkinson, segundo a qual o trabalho se expande até ocupar todo o tempo disponível, e brinca que ainda não organizou as fotos digitais de 2019.

Os exemplos dele são simples. Um executivo marca reuniões de 45 minutos em vez de uma hora, e a conversa fica mais objetiva. A própria newsletter do autor tem o domingo no nome, o que cria um prazo fixo e o impede de adiar a publicação por perfeccionismo.

  1. Alguém vai perguntar se você fez
    Poucas coisas motivam tanto quanto o medo de decepcionar alguém. Meer cita o hábito do ator Hugh Jackman, que toda manhã descreve por escrito seu dia ideal como se já tivesse acontecido e envia o texto ao coach. Para Jackman, todo mundo precisa prestar contas a alguém.

Quem não tem um coach pode mandar o plano do dia para um amigo e esperar a pergunta no fim da tarde sobre como foi.

O autor faz uma ressalva. Segundo ele, pesquisas mostram que anunciar metas publicamente pode reduzir a chance de cumpri-las, porque falar sobre o objetivo gera uma sensação antecipada de conquista. A recomendação é contar só para poucas pessoas capazes de cobrar de verdade.

  1. Dinheiro em jogo
    O quarto tipo de restrição coloca o bolso no meio. Meer cita um escritor que reserva com meses de antecedência um retiro de escrita sem reembolso, e um estudante de idiomas que paga adiantado aulas semanais com multa por cancelamento. Faltar passa a custar o dobro.

A explicação, segundo ele, é que as pessoas detestam desperdiçar dinheiro e, por isso, seguem em frente para justificar o investimento.

Autogestão também se aprende
Reconhecer os próprios gatilhos, prever onde a motivação vai falhar e criar condições para seguir em frente são habilidades de autogestão, uma das bases da inteligência emocional. Elas pesam nos estudos, na busca pelo primeiro emprego e em qualquer meta de longo prazo.

O curso Inteligência Emocional, do Na Prática, é 100% online e gratuito, com 6 horas de videoaulas, materiais complementares e atividades práticas. As aulas tratam de autogestão, automotivação diante de adversidades, empatia, como agir sob pressão e como gerenciar conflitos e inspirar equipes. Quem conclui recebe certificado digital.

Força de vontade é suficiente para cumprir metas?
Para o escritor e coach Ben Meer, não. Ele defende tratar a força de vontade como uma reserva de emergência e usar o esforço uma única vez para criar sistemas que tornem as boas escolhas automáticas.

O que são restrições escolhidas?
São limites que a própria pessoa define para facilitar as boas escolhas, como apagar um aplicativo do celular, marcar reuniões mais curtas, combinar com um amigo de prestar contas ou pagar adiantado por uma atividade.

Contar as metas para os outros ajuda ou atrapalha?
Depende de para quem. Segundo Meer, anunciar metas publicamente pode dar uma sensação antecipada de conquista e reduzir o esforço. Contar para poucas pessoas que vão cobrar de verdade tende a funcionar melhor.

Fonte exame
Foto: Thinkstock/Halfpoint/Divulgação