O trabalho híbrido mudou: agora o desafio é aprender a liderar humanos e agentes digitais

Lideranças precisarão capacitar equipes, incentivar a experimentação e transformar processos para integrar a inteligência artificial no dia a dia das empresas, defendem executivos durante o evento 'Leader Shift'

Durante e pós pandemia, falar em trabalho híbrido significava discutir quantos dias os funcionários ficariam no escritório e quantos trabalhariam de casa. Mas essa definição está ganhando uma nova definição.

O novo modelo híbrido, na avaliação de executivos da Sólides, empresa brasileira de tecnologia para gestão de pessoas, será formado por equipes compostas por profissionais e agentes de inteligência artificial trabalhando lado a lado.

“O híbrido há três anos era remoto ou presencial. Agora a gente está falando de híbrido entre agentes humanos e agentes de inteligência artificial”, afirma Rafael Kahane, CMO da Sólides, durante o Leader Shift, evento promovido pela Sólides em Belo Horizonte.

A mudança representa uma transformação profunda no mercado de trabalho. Se antes a inteligência artificial era vista apenas como uma ferramenta de automação, agora ela passa a ocupar um papel semelhante ao de um integrante da equipe.

“Debatemos agentes de IA como funcionários da equipe, como parte do headcount, como um membro do time”, diz Kahane.

O papel da liderança
A adoção da inteligência artificial não depende apenas da tecnologia, mas principalmente das lideranças, afirma Wladmir Brandão, Chief Artificial Intelligence Officer (CAIO) da Sólides. Segundo o executivo, criar uma cultura de IA é uma responsabilidade compartilhada entre alta gestão, gestores intermediários e funcionários.

“Essa liderança tem o papel de transformar esse discurso estratégico em prática. Não é apenas automatizar processos, mas repensar se a forma atual de trabalhar ainda faz sentido em uma era de inteligência artificial”, afirmou.

Ricardo Kremer, Chief Product Officer (CPO) da companhia, avalia que a transformação dificilmente acontecerá de forma isolada por iniciativa de um funcionário.

“Não estamos falando de automação. Estamos falando de transformação da forma como se trabalha. Um funcionário sozinho dificilmente terá essa visão. Ele precisa da liderança para provocar essa mudança”, afirma Kremer.

Além da mudança cultural, os executivos defendem que as empresas invistam continuamente em capacitação.

“A velocidade das novidades está muito alta. Não existe mais a escolha entre acompanhar ou não acompanhar. As pessoas precisam ser treinadas”, afirma Kremer.

Por que tantos projetos de IA fracassam?
Embora a inteligência artificial esteja no centro das estratégias corporativas, a implementação ainda enfrenta obstáculos.

Durante o painel, os executivos citaram projeções do MIT e da Gartner que apontam que a maior parte dos projetos-piloto de IA não alcança os resultados esperados.

Para Kremer, um dos principais erros é colocar a tecnologia acima do problema de negócio.

“As pessoas se apaixonam pela tecnologia e esquecem de entender qual problema ela vai resolver e qual retorno vai gerar”, afirma.

Na avaliação do executivo, a decisão entre desenvolver uma solução própria ou contratar uma plataforma pronta também passa pela estratégia da empresa.

“Tudo o que é core do negócio e gera diferencial competitivo faz sentido desenvolver internamente. O que é commodity, faz mais sentido comprar pronto”, diz.

Brandão reforça que a maior parte das iniciativas falha por três motivos: falta de conhecimento técnico, dificuldade de aplicar a tecnologia ao negócio e medo de errar.

“As pessoas não sabem por onde começar, muitas vezes não sabem como gerar valor e ainda têm receio de falhar. Enquanto estamos aprendendo, o erro faz parte do processo”, afirma.

Para avançar com IA, Brandão defende que as empresas criem ambientes seguros para experimentação.

“Capacitação, incentivo e tirar o medo das pessoas de errar são fatores fundamentais para que os projetos deem certo.”

Quais profissionais devem se preocupar?
A popularização da inteligência artificial também reacendeu uma das principais dúvidas do mercado: quais carreiras serão mais impactadas.

Para Brandão, a tendência é que a IA assuma atividades repetitivas e previsíveis, enquanto funções que dependem de julgamento humano, confiança e supervisão continuem valorizadas.

“Profissões que envolvem julgamento e relacionamento tendem a permanecer relevantes. A IA pode resolver muita coisa, mas alguém precisa supervisionar, direcionar e tomar decisões”, afirma.

O executivo cita exemplos como terapeutas, enfermeiros e profissionais que constroem vínculos de confiança com clientes e equipes.

Já funções altamente padronizadas podem passar por transformações mais profundas.

“Se você é um profissional que apenas executa tarefas repetitivas, talvez precise se preocupar mais. Mas se você cria soluções, desenvolve relacionamento e usa a IA como apoio, seu papel continua sendo muito importante.”

A oportunidade para empresas brasileiras
Apesar das projeções indicarem que países desenvolvidos podem sentir um impacto maior da inteligência artificial por concentrarem mais empregos ligados ao conhecimento, os executivos enxergam uma oportunidade para mercados emergentes.

Na avaliação de Kremer, empresas que ainda não passaram por grandes processos de digitalização podem usar a IA para acelerar etapas e ganhar competitividade.

“Quem ainda não está tão automatizado pode dar um salto grande de produtividade usando inteligência artificial e transformando seus processos”, afirma.

Para os especialistas, a principal lição é que a discussão já não é sobre se a IA fará parte do trabalho, mas sobre como profissionais e organizações irão aprender a trabalhar com ela.

O novo trabalho híbrido, portanto, não será uma escolha entre escritório e casa, mas uma parceria, que segundo especialistas, cada vez mais próxima entre pessoas e agentes digitais.

Fonte Exame
Foto: SvetaZi/Getty Images for National Geographic Magazine