Apesar de o pico de casos de dengue no Distrito Federal ocorrer entre março e abril, período de maior circulação do mosquito Aedes aegypti, ações preventivas durante a estação seca são fundamentais para eliminar criadouros antes do início das chuvas e reduzir o risco de epidemias nos meses seguintes.
Depois de enfrentar a pior epidemia de dengue da história, quando registrou mais de 277 mil casos prováveis e quase 7 mil internações em 2024, o número de registros caiu significativamente no DF nos anos seguintes: 10.671 em 2025 e 3.754 em 2026.
Apesar disso, especialistas e autoridades alertam para os perigos da proliferação do Aedes aegypti e reforçam que a prevenção continua sendo a principal arma contra o mosquito. O Governo do Distrito Federal (GDF) e moradores reforçam medidas de prevenção para evitar que o cenário se repita, enquanto a vacinação segue disponível para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos.
Moradora do Varjão, Laura Victoria Fahning de Souza, 67 anos, aposentada, afirma que mantém uma rotina rigorosa de prevenção contra o mosquito da dengue em casa. Segundo ela, todos os vasos de plantas recebem areia em vez de terra, os ralos permanecem fechados quando não estão em uso e não há recipientes com água parada. “Não dou essa chance para eles se proliferarem. Só se o mosquito entrar pela varanda, porque, fora isso, não tem condição”, contou.
Mesmo com todos os cuidados, Laura já enfrentou a doença e relembra que viveu momentos difíceis durante uma infecção contraída quando ainda morava no Rio de Janeiro, em 2001. “Eu não conseguia comer nem beber água, porque ela ficava com gosto de metal. Minha mãe fazia sopa batida no liquidificador e me dava água de coco. Foi isso que me manteve nutrida e hidratada”, recordou.
Assim como Laura, outros moradores do Varjão também redobraram os cuidados para evitar a doença. Luana Maria, 30, afirma que a principal preocupação é eliminar qualquer acúmulo de água dentro de casa. “A gente não deixa água parada em vasos de plantas nem em baldes. Como temos uma área grande, reaproveitamos a água da máquina de lavar, mas usamos na hora justamente para não deixar acumulada e evitar a dengue”, explicou.
A preocupação aumentou depois que o filho, de 6 anos, contraiu a doença em 2023. Luana conta que ficou apreensiva porque a criança tem Transtorno do Espectro Autista (TEA) e pressão alta. “Fiquei com muito medo, mas, graças a Deus, foi um caso leve. Levamos ele ao Hospital do Paranoá, onde faz acompanhamento, e a equipe orientou todos os cuidados. Não precisou ser internado”, relatou.
Luana também contou que a irmã teve dengue duas vezes em um curto intervalo de tempo. “Ela trabalha em uma creche aqui perto, onde tem muito mato. Teve dengue e, cerca de dois meses depois, pegou novamente”, lembrou.
Na Fercal, a rotina de prevenção também faz parte do dia a dia dos moradores. A dona de casa Mayra Rodrigues, de 39 anos, afirmou que mantém cuidados constantes para evitar água parada e possíveis focos de mosquito em casa. “Aqui temos plantinhas, mas furamos o vaso para a água não ficar acumulada. Se tem garrafa no quintal, a gente vira de cabeça para baixo. Também estamos sempre trocando a água dos cachorros, lavando tudo para colocar água nova”, assinalou.
Fiscalização
Em vistoria acompanhada pelo Correio na Asa Norte, agentes da Vigilância Ambiental da Secretaia de Saúde (SES-DF) identificaram situações que ainda favorecem a proliferação do Aedes aegypti e reforçaram a importância da conscientização da população para evitar novos focos do mosquito.
Segundo o agente da Vigilância Ambiental Pedro Horowitz, o erro mais frequente ainda é o acúmulo de água nos pratinhos de plantas. “É importante lembrar que o cloro é uma ferramenta essencial na prevenção. Já a água sanitária não é indicada, porque tem uma concentração de cloro muito menor e não oferece a mesma eficácia”, explicou.
Além da orientação técnica, o agente destacou que a principal estratégia de combate à dengue é a educação ambiental. A prioridade é conscientizar os moradores sobre a eliminação de criadouros, em vez de adotar medidas punitivas, o que também facilita o acesso das equipes às residências durante as vistorias. “Não multamos ninguém, até mesmo para que a população nos dê liberdade de entrar nas casas”, disse Pedro.
O agente Assuero Torres relembrou ocorrências que chamaram a atenção da equipe ao longo do trabalho de fiscalização. “Uma delas foi uma piscina abandonada, que estava completamente preta e cheia de focos do mosquito da dengue. Outra foi um autódromo que armazenava pneus de forma aparentemente correta, com os furos, mas eles estavam posicionados de lado. Com isso, a água ficou acumulada e parada, criando um ambiente ideal para a proliferação do mosquito”, relatou.
Cuidados
O infectologista Juival Ribeiro explicou que, além de eliminar os focos, a população deve adotar medidas para evitar a picada do mosquito, especialmente durante os períodos de maior circulação da doença. “O uso de repelentes aprovados pela Anvisa, roupas claras que cubram a maior parte do corpo, telas de proteção nas residências e mosquiteiros, principalmente para proteger bebês, são medidas importantes. Sempre que possível, também é recomendado evitar áreas com epidemias de dengue”, afirmou.
Sobre a doença, Juival ressaltou que, embora a maioria dos pacientes se recupere completamente, alguns casos podem evoluir para formas graves. “A dengue provoca febre alta, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, dores no corpo e nas articulações e manchas vermelhas na pele. O maior alerta vem quando a febre começa a diminuir, geralmente entre o terceiro e o sétimo dia, porque podem surgir sinais de gravidade, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes, tontura, dificuldade para respirar, sangramentos e cansaço excessivo. Esses sintomas indicam risco de dengue grave e exigem atendimento médico imediato, pois, sem tratamento adequado, o paciente pode evoluir até mesmo para o óbito”, alertou.
Prevenção
Além das medidas para eliminar os criadouros do mosquito, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) reforça a importância da vacinação contra a dengue. No DF, a campanha é destinada exclusivamente a crianças e adolescentes de 10 a 14 anos (até 14 anos, 11 meses e 29 dias), com esquema de duas doses, aplicadas com intervalo de 90 dias.
Para receber a vacina, pais ou responsáveis devem apresentar documento de identificação e a caderneta de vacinação. Crianças e adolescentes que tiveram dengue precisam aguardar seis meses após a infecção para iniciar a imunização. Já aqueles que contraíram a doença depois da primeira dose devem manter a data prevista para a segunda aplicação, desde que haja um intervalo mínimo de 30 dias entre a infecção e a vacinação. Consulte os locais de vacinação contra dengue no site da SES-DF.
*Colaboração: Brunna Ramos, Elias Frazão e Vitória Torres
Fonte Correio Braziliense
Foto: Davi Pereira/CB/D.A Press












