O vídeo produzido com inteligência artificial para simular um pronunciamento de Jair Bolsonaro, exibido durante a convenção nacional do PL, tornou-se o primeiro grande desafio do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) diante do avanço dessa tecnologia no ambiente político.
Segundo fontes ouvidas pela CNN, a Corte já trabalha com a expectativa de que o material seja alvo de questionamentos.
A peça audiovisual, gerada por IA, mostra Bolsonaro declarando apoio a Flávio Bolsonaro. O vídeo foi exibido na convenção do partido em um contexto específico: Alexandre de Moraes havia vedado qualquer manifestação político-partidária de Jair Bolsonaro após a divulgação de uma carta em que ele declarava apoio ao filho.
Divisão no Judiciário
A recepção do vídeo em Brasília foi heterogênea. De acordo com o analista de Política da CNN Matheus Teixeira, “há uma ala do TSE que entendeu que não há grande gravidade, uma vez que houve um aviso de que era um vídeo manipulado, feito por IA, portanto sem tentativa de manipulação do eleitorado”.
No entanto, outra parte do Judiciário encarou o episódio com maior preocupação.
Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, publicou um texto nas redes sociais logo após a convenção em que faz um paralelo entre totalitarismo e trapaça, citando inclusive ingerência estrangeira.
Embora o texto não mencione explicitamente a situação, foi amplamente interpretado como um recado ao TSE de que o uso da imagem de Jair Bolsonaro via inteligência artificial pode configurar uma burla à decisão de Alexandre de Moraes.
Disputa de bastidores entre STF e TSE
Matheus Teixeira destacou que o episódio se insere em um contexto mais amplo de tensão institucional. “Há uma ala do Supremo Tribunal Federal que, nos bastidores, faz uma espécie de ameaça de se tornar uma instância recursal do TSE”, explicou o analista.
Embora o TSE costume dar a palavra final sobre questões eleitorais, o STF, como última instância do Judiciário, tem poder para derrubar decisões da Corte eleitoral — algo incomum historicamente, mas que ganhou relevância neste pleito.
O analista lembrou ainda que o TSE, presidido por Cássio Nunes Marques e André Mendonça — ambos indicados por Jair Bolsonaro —, tem sido alvo de iniciativas de uma ala do STF que se opõe a esses dois ministros.
Casos envolvendo Romeu Zema, Alessandro Vieira e um inquérito contra Flávio Bolsonaro foram citados como exemplos de temas que poderiam ter sido resolvidos na esfera eleitoral, mas que o STF tomou à frente.
Vácuo regulatório sobre IA
Outro ponto sensível destacado na análise é a ausência de um entendimento consolidado sobre o uso de inteligência artificial no contexto eleitoral.
O PT apresentou uma ação ao TSE sobre o tema, e a Corte deverá agora interpretar sua própria resolução a respeito do uso de IA — justamente em um caso que envolve diretamente a campanha de Flávio Bolsonaro.
“Sem um entendimento muito claro, e isso é natural de tecnologias que avançam, fica difícil saber o que pode e o que não pode exatamente”, pontuou Matheus Teixeira.
Fonte CNN Brasil
Foto: CNN












