Eles trocaram a carteira assinada pela internet. Veja como estão vivendo dessa escolha

Histórias de profissionais que trocaram empregos convencionais pelo trabalho digital mostram as oportunidades e os desafios de viver da própria produção

A busca por mais autonomia profissional tem levado brasileiros a experimentar uma mudança na forma de trabalhar. Em vez da carteira assinada e de uma rotina definida por um empregador, algumas pessoas passaram a buscar renda na internet.

A BBC News Brasil contou a história de profissionais que fizeram essa transição e encontraram no ambiente digital uma alternativa para ganhar dinheiro. São trajetórias diferentes, mas com um ponto em comum: a tentativa de ter mais controle sobre o próprio trabalho.

Um dos casos é o de Henrique Batista, de 36 anos. Antes de trabalhar pela internet, ele produzia e entregava hambúrgueres com a mãe em Paraopeba, em Minas Gerais.

A mudança aconteceu depois de um dia difícil fazendo entregas de moto. Segundo ele contou à BBC, uma chuva durante o expediente o fez repensar a atividade.

Henrique decidiu então buscar outra fonte de renda. Encontrou um curso sobre produção de conteúdo para a internet e começou a criar vídeos para o YouTube sem aparecer.

A promessa de trabalhar para si mesmo
A história de Henrique faz parte de uma transformação maior no mercado de trabalho. A internet criou possibilidades para profissionais oferecerem serviços, venderem produtos ou produzirem conteúdo sem depender necessariamente de uma empresa tradicional.

Essa mudança pode representar maior autonomia. O profissional passa a escolher horários, projetos e estratégias de trabalho.

Mas autonomia não significa necessariamente menos trabalho.

A criadora de conteúdo Tai Squinalli, também entrevistada pela BBC News Brasil, é um exemplo. Depois de enfrentar dificuldades profissionais, ela começou a produzir conteúdo para a internet.

Segundo a reportagem, Tai chegou a trabalhar até 12 horas por dia, incluindo noites e finais de semana.

A experiência mostra uma contradição comum nesse tipo de transição: a pessoa pode deixar de ter um chefe, mas passa a concentrar nela mesma responsabilidades que antes eram distribuídas dentro de uma empresa.

O trabalho muda, mas as cobranças continuam
Quem trabalha por conta própria precisa lidar com tarefas que vão além da atividade principal.

Dependendo do modelo de trabalho, isso pode envolver:

encontrar clientes ou audiência;
definir preços e fontes de receita;
divulgar o próprio trabalho;
acompanhar resultados;
administrar despesas;
lidar com períodos de menor renda.
No caso dos produtores de conteúdo, existe ainda a dependência das plataformas digitais. Mudanças nas regras de monetização ou nos sistemas de recomendação podem afetar diretamente os ganhos.

Foi o que aconteceu com Tai. Ela teve cinco canais desmonetizados pelo YouTube e precisou mudar de estratégia.

A situação evidencia uma diferença importante entre um emprego tradicional e uma atividade digital independente. Na CLT, existe uma relação formal de trabalho. Na internet, a renda pode depender diretamente de audiência, clientes ou plataformas.

Por que a internet atrai quem quer mudar de carreira?
A flexibilidade é um dos principais fatores associados a esse movimento.

Para algumas pessoas, trabalhar pela internet permite permanecer em casa, escolher horários diferentes ou desenvolver uma atividade paralela ao emprego principal.

Também existe uma barreira de entrada relativamente baixa em determinadas atividades. Hoje, uma pessoa pode criar um perfil profissional, publicar conteúdo, oferecer serviços ou montar uma loja sem precisar de uma estrutura física.

No entanto, isso não significa que todas essas atividades sejam sustentáveis financeiramente.

A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, professora da University College Dublin e pesquisadora desse mercado, disse à BBC que a promessa de substituir empregos tradicionais por uma rotina mais flexível já existia no marketing digital antes da popularização da inteligência artificial.

Segundo ela, a tecnologia ampliou essa promessa ao apresentar a possibilidade de automatizar parte do trabalho.

O problema da renda previsível
Um dos principais desafios de abandonar um emprego formal é lidar com a instabilidade.

Um trabalhador contratado costuma saber quanto receberá em determinado período e tem direitos previstos na legislação trabalhista. Quem trabalha por conta própria pode ter meses de maior faturamento e outros de queda.

No ambiente digital, essa diferença pode ser ainda mais acentuada.

Um conteúdo pode viralizar e gerar uma receita elevada em determinado período. Isso não significa que o resultado será repetido no mês seguinte.

Por isso, faturamento não é sinônimo de renda estável.

A própria experiência relatada por Tai mostra essa diferença. Depois de alcançar um faturamento elevado em determinado mês, ela passou por um período sem receber da plataforma.

A internet não eliminou o trabalho
Outro ponto importante é a ideia de que trabalhar pela internet significa trabalhar menos.

As histórias reunidas pela BBC mostram justamente o contrário em alguns casos.

Mesmo com ferramentas capazes de acelerar determinadas tarefas, os profissionais continuam precisando produzir, acompanhar resultados, testar formatos e se adaptar às mudanças do mercado.

No caso dos canais de conteúdo, por exemplo, a inteligência artificial pode ajudar a criar roteiros, imagens ou narrações. Mas isso não resolve questões como qual conteúdo produzir, para quem e com qual objetivo.

O mesmo vale para outras atividades digitais. Ferramentas podem facilitar determinadas etapas, mas não eliminam a necessidade de conhecimento, planejamento e trabalho.

O que avaliar antes de abandonar um emprego
Para quem pensa em fazer uma mudança semelhante, a experiência desses profissionais sugere alguns pontos práticos.

Antes de deixar uma fonte de renda estável, é importante avaliar:

quanto a nova atividade gera atualmente, e não quanto poderia gerar;
por quanto tempo essa renda vem sendo mantida;
quais custos estão envolvidos;
se existe dependência de uma única plataforma ou cliente;
como funcionaria a renda em um período de baixa;
quais competências precisam ser desenvolvidas.
Também pode ser possível testar uma nova atividade antes de abandonar completamente o emprego. Um projeto paralelo, por exemplo, permite avaliar demanda e potencial de renda sem eliminar imediatamente a fonte principal de receita.

A mudança da carteira assinada para a internet, portanto, não representa apenas uma troca de ambiente de trabalho. Ela envolve uma mudança na relação do profissional com renda, risco, autonomia e responsabilidade.

Fonte Exame
Foto: Magnific/Reprodução