Cores da Índia no coração de Brasília

Capital recebeu, ontem, a segunda edição do Ratha-Ytra — o tradicional Festival das Carruagens dedicado ao Senhor Jaganntha — no Eixão do Lazer. Este ano, destaque foi a estreia de uma nova carruagem alegórica

O coração de Brasília deu lugar, na manhã de ontem, à apaixonante e acolhedora cultura indiana. Na altura da 106/107 Norte, o Eixão do Lazer transformou-se em palco de uma celebração ancestral. A segunda edição do Ratha-Ytra em Brasília — o tradicional Festival das Carruagens dedicado ao Senhor Jaganntha, o Senhor do Universo — trouxe cores, cantos, música e devoção à capital federal.

Promovido pela Associação Internacional para a Consciência de Krishna (ISKCON), conhecida nas redes sociais como Bhakti Yoga Brasília, o evento reuniu praticantes, simpatizantes e pedestres. O grande destaque deste ano foi a estreia de uma nova carruagem alegórica, réplica fiel dos carros milenares utilizados em Jaganntha Pur, cidade sagrada da Índia, onde o festival se originou.

Puxada manualmente pelo público ao som ritmado de mantras, a carruagem seguiu em procissão em direção à 109 Norte antes de retornar ao ponto de concentração. A celebração, trazida ao Ocidente na década de 1960, por Srila Prabhupda (1896-1977), teve sua histórica primeira edição ocidental em São Francisco, em 1967. Ao longo dos anos, o evento tem reafirmado sua força no Brasil em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Alto Paraíso de Goiás e, agora, na capital do país.Play Video

“Brasília está recebendo pela segunda vez. No ano passado, tivemos uma média de 400 pessoas. A recepção do público é sempre muito calorosa”, destacou João Fonseca, 38 anos, um dos organizadores do evento. De acordo com ele, o Ratha-Ytra ainda é recente na capital, mas, mesmo assim, a quantidade de devotos e daqueles que passam e tiram apenas uma foto tem empolgado.

A programação contou com palestra, apresentações musicais, distribuição de lanches e a presença de autoridades diplomáticas, como os Embaixadores da Índia e do Nepal com suas famílias, além de Purushatraya Swami, respeitado mestre espiritual com atuação na América do Sul, Portugal e Espanha.

Portas abertas 

Para os devotos da filosofia Vaishnava, ver as deidades caminhando entre os frequentadores do Eixão representa um gesto de partilha e generosidade espiritual. Lalita Devi, 42, moradora de Taguatinga Sul e praticante do Sanatana Dharma na linha Vaishnava, expressou a emoção de vivenciar o festival nas ruas do Distrito Federal. E mais do que isso, celebrou a beleza e o encanto de uma cultura que tanto ensina.

“A importância desse evento em Brasília é essa bênção milenar que é vivida na Índia há muito tempo. Esse é um festival imenso na Índia. E é uma grande honra que a gente possa estar realizando ele aqui, mesmo em proporções muito menores, na nossa cidade. E essas deidades que vão desfilar no carro hoje, é como se a gente estivesse trazendo as bênçãos de Deus para as ruas, para nós. É realmente muito emocionante participar.”

Graziella Lascala, 32, moradora da Asa Norte, ressaltou o caráter inclusivo e comunitário de levar a cultura védica para o espaço público. “Acredito que a principal importância desse evento é sair do templo e trazer a nossa cultura para as ruas, para que mais pessoas conheçam. Para que as deidades saiam do templo e, aqui na rua, estejam disponíveis a mais pessoas, que podem estar junto com a gente, cantar com a gente, conhecer um pouco mais da cultura”, detalhou. Ela acrescentou, ainda, o valor transformador dos ensinamentos que são absorvidos diante de uma tradição que abraça tantas pessoas. “O principal que marca a nossa cultura é a devoção. Vejo que é uma maneira de a gente aprender a viver de forma também mais íntegra e mais harmoniosa”, completou.

O Ratha-Ytra em Brasília atrai não apenas devotos de longa data, mas também pessoas de diferentes trajetórias espirituais, encantadas pela mensagem de paz e harmonia do festival. É o caso da professora de yoga Larissa Sampaio, 43, moradora da Asa Sul, que participou acompanhada da filha Esther, de 3 anos e 8 meses.

“Eu não sou Vaishnava, não sou devota, sou cristã, inclusive, mas sou professora de yoga. Quando comecei a dar aula, conheci o presidente da associação, e ele criou um projeto comigo. A partir dos convites dele, comecei a frequentar os eventos e a estudar os Vedas e o Vaishnavismo pelos livros sagrados, como o Bhagavad-Gita. É algo que muda a nossa vida. A gente começa a entender várias coisas da nossa existência, como agir de forma mais íntegra, harmoniosa e equilibrada”, destacou.

Sobre a presença da pequena Esther na caminhada, Larissa afirmou que a presença das crianças, tão puras, alegres e inocentes, reforça ainda mais a temática central do evento. “Hoje estou aqui para ajudar e colaborar com eles, que são meus amigos muito especiais. E trouxemos a pequenininha para somar, para trazer essa energia da criança, a energia pura que eles prezam muito, que é a energia sátvica”, ressaltou.

Entre cores vibrantes, sorrisos e cantos harmônicos, o Ratha-Ytra transformou mais um domingo no Eixão em um encontro memorável de espiritualidade, diversidade e cultura ancestral.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Eduardo Fernandes/ CB/ DA PRESS