Celina Leão e Leandro Grass avançam ao 2º turno no DF

Numa disputa polarizada, dois candidatos terão mais 20 dias para convencer os eleitores do Distrito Federal de que são a melhor opção. Especialistas analisam possíveis estratégias para conquistar o apoio de ex-adversários

O novo governador ou governadora do Distrito Federal será definido somente no dia 25, em segundo turno, a ser disputado entre Celina Leão (PP) e Leandro Grass (PT). A candidata do PP e atual governadora teve 825.530 votos válidos, correspondentes a 49,93%. Faltaram apenas cerca de 1,2 mil votos para Celina Leão vencer no primeiro turno. O petista teve 569.930 votos, totalizando 34,47%. Paula Belmonte (PSDB) ficou com 8,51%, Kiko Caputo (Novo) com 4,36% e Ricardo Cappelli (PSB) com 2,23%.

Celina Leão comemorou o desempenho nas urnas, que superou as estimativas das pesquisas da última semana. “Quero agradecer a cada pessoa que confiou no nosso projeto. A gente fez uma campanha limpa, eu sempre falei isso para vocês, e nós vamos ter mais 20 dias de campanha com muita alegria”, afirmou. “Eu fiz o meu melhor, eu dei o meu coração nesta campanha, mas Deus sabe de todas as coisas e a resposta sempre vem Dele, então está tudo certo”, acrescentou, rechaçando qualquer antecipação de vitória, garantindo foco total no trabalho nos próximos dias e reafirmando a receptividade do resultado com humildade, alegria e otimismo. 

Rumo à segunda etapa da disputa, Celina afirmou que buscará o apoio de candidatos não eleitos. “Vai ficar uma eleição polarizada, como está a eleição do Brasil, e isso demonstra que a polarização que todo mundo apostou que não fosse acontecer, aconteceu, e aqui no Distrito Federal não será diferente”, destacou a candidata.

Leandro Grass ressaltou que agora é a hora de ir atrás dos indecisos. “Foram quase 500 mil pessoas que deixaram de votar, ou votaram branco e nulo, porque talvez não acreditassem, não confiassem em quem se apresentou. Agora eu vou me apresentar nesses próximos 20 dias à população que ainda não me conhece”, afirmou.

O petista sinalizou que pretende buscar o apoio dos demais candidatos que disputaram o primeiro turno. “Eu quero unir todas as pessoas que desejam o bem de Brasília. Fica aqui meu cumprimento e meu respeito ao ex-governador (José Roberto) Arruda, à Paula Belmonte, ao Kiko (Caputo), ao (Ricardo) Capelli e a todos os demais candidatos que se apresentaram nesta eleição”, ressaltou. “Tem que escutar, tem que aprender a fazer campanha na rua. Nós sabemos fazer, vamos recuperar. Vamos falar com todo mundo, quem pensa igual e quem pensa diferente. Eu não quero saber qual é a nossa divergência. A nossa convergência é derrotar Celina Leão”, completou. 

Projeções

O Instituto Opinião Inteligência Política projeta para o segundo turno a vitória de Celina, com cerca de 58% dos votos válidos, contra 42% de Grass. “A probabilidade de vitória dela passa de 95%. A conta é difícil para Grass. Celina sai a poucos votos da maioria e precisa de uma parte pequena dos 15,6% que foram para os outros candidatos. Grass precisaria de quase todos esses votos. Precisaria também que todos esses eleitores voltassem às urnas, e nem o eleitor de Cappelli, que é de esquerda, deve migrar inteiro para ele”, analisou Alexandre Garcia, CEO do instituto. “Na nossa estimativa, o eleitor de Caputo vai mais para Celina, o de Cappelli mais para Grass, e o de Belmonte se divide. Um terço deles deve anular ou não votar”, acrescentou Garcia.

As pesquisas de segundo turno feitas antes da eleição apontavam na mesma direção, davam Celina entre 60% e 64% dos votos válidos contra Grass. “Descontamos alguns pontos dessas simulações porque, no 1º turno, Celina terminou cerca de 3 pontos abaixo do que as pesquisas mostravam, e Grass terminou acima”, afirmou Garcia. “A eleição presidencial também favorece Celina. Flávio Bolsonaro venceu no DF com cerca de 51% dos votos válidos. Além disso, Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL) ficaram com as duas vagas do Senado. Celina está no mesmo campo político, e o segundo turno para presidente deve levar esse eleitor de volta às urnas no fim do mês”, observou Garcia.

“O risco para Celina é Grass repetir 2022, quando cresceu bem além do que as pesquisas mostravam na reta final. Mesmo assim, ele teria de ganhar mais de 15 pontos em três semanas. As primeiras pesquisas de segundo turno vão mostrar se há esse movimento. Para a nossa próxima rodada, a lição do primeiro turno é descontar parte da vantagem de Celina, e esperar Grass um pouco acima do que a pesquisa mostrar”, comentou Alexandre Garcia.

Análise

Mestre em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB), Ariel Calmon avaliou que a mobilização pelo voto útil na reta final foi determinante para a disputa ser decidida em segundo turno. “A campanha de Grass tentou reduzir a resistência do PT em Brasília, se apresentar como o único capaz de chegar ao segundo turno contra Celina e o Lula fez um comício em Brasília pedindo votos para Leandro. O eleitor oposicionista que estava disperso, conseguiu convergir os votos neste momento”, analisou. 

“Temos um desgaste do caso BRB-Master que pesou mais do que as pesquisas captavam na campanha de Celina. A campanha dela foi marcada por um discurso de um novo governo na tentativa de se descolar de Ibaneis, mas, nos últimos debates, ela esteve ausente e deixou com que os adversários abordassem esse ponto sem um contraponto dela em uma semana decisiva. As pesquisas apontavam uma vitória de Celina em primeiro turno, mas sem garantia, por conta da margem de erro”, observou Ariel.

Calmon apontou que um caminho para o PT avançar no segundo turno é transformar a eleição em uma espécie de plebiscito sobre o BRB e sobre a herança de Ibaneis. “Em um confronto direto, o tema acaba sendo mais forte do que em uma disputa fragmentada. Depois, será preciso montar uma frente ampla. Cappelli parece ser um apoio natural, e Grass afirmou em debate que lideranças do PSD, Avante tinham procurado ele para um segundo turno”, frisou. 

O especialista acredita que o eleitorado órfão do Arruda vai ser decisivo no segundo turno. “Outro caminho é mobilizar os eleitores que se abstiveram e não foram votar. Além disso, é aproveitar o palanque nacional do Lula para ajudar a mobilizar a base e reverter o movimento antipetista. O desafio de Grass será apostar em temas locais, no perfil dele, mas também na marca do partido para tentar angariar mais votos”, discorreu Calmon.

Legislativo

No Senado Federal, as duas aliadas de Celina Leão foram eleitas e devem ajudá-la na campanha do segundo turno. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis foram eleitas com 938.496 e 886.616 votos, respectivamente. Dos 24 deputados distritais eleitos, 16 são da base de apoio a Celina Leão. Se Leandro Grass vencer em segundo turno, terá apenas sete ou oito parlamentares em sua base na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Na disputa para deputado distrital, o destaque foi Max Maciel (PSol), que foi o mais votado, com 92.234 votos. Ele conquistou um recorde histórico, ao superar Fábio Félix (PSol) em 2022, com 51.792. Na Câmara dos Deputados, oito homens foram eleitos para representar o DF. O destaque foi Fábio Félix, o mais votado, com 224.224 votos.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Ed Alves/CB/D.A Press