Conheci “O Código do Ser”, de James Hillman, quando era diretor de Recursos Humanos da Natura. Quem me apresentou o livro foi o Marcelo Cardoso, uma das pessoas mais inteligentes e inspiradoras com quem já trabalhei. Livro e pessoa se pareciam: os dois tinham o dom de fazer você olhar para a própria vida de um ângulo que ainda não tinha testado. Poucas leituras me marcaram tanto. Volto a ela de tempos em tempos, e sempre encontro algo que ainda não tinha visto.
A ideia central do livro cabe numa imagem: a bolota. Dentro daquela semente pequena já existe o carvalho inteiro. Não é uma promessa vaga nem um projeto a ser decidido mais tarde. O carvalho já está lá, esperando as condições para se manifestar. Hillman diz que cada um de nós chega ao mundo assim, carregando uma imagem própria daquilo que veio ser. Ele chama isso de vocação, de chamado, às vezes de gênio interior ou daimon. Eu prefiro chamar de singularidade: aquele jeito único de estar no mundo que ninguém mais tem e que, cedo ou tarde, pede passagem.
Vale uma palavra sobre esse daimon. Hillman lembra que, para os gregos antigos, ele era o gênio interior que acompanha cada pessoa, e que não aceita ser ignorado. Quando negado, ele não desaparece. Ele se volta contra o próprio dono. Aparece como autossabotagem: o projeto que a gente mesmo derruba na reta final, a oportunidade que a gente deixa escapar sem saber por quê. A jornada que deveria ser daimônica vira “demoníaca”. Não é castigo. É o chamado cobrando o que ficou sem resposta.
Isso vira do avesso a explicação que costumamos aceitar. Aprendemos que somos o resultado da genética e da criação, e que o resto é acaso. Hillman não nega nada disso, mas diz que falta uma peça. “Há mais em uma vida humana do que nossas teorias permitem”, escreve ele logo nas primeiras páginas. Essa peça que falta é a bolota. Não somos apenas moldados pelo que nos acontece. Também existe algo em nós que escolhe, que insiste, que resiste. Algo que estava lá antes de a história começar.
Por isso ele olha para a infância de um jeito diferente. Aquelas manias e obsessões de criança, aqueles medos que pareciam não fazer sentido, muitas vezes são a vocação se anunciando antes da hora. Ele conta o caso de Manolete, o maior toureiro da Espanha, que quando menino era tímido e vivia grudado na saia da mãe. Todo mundo via fraqueza. Hillman vê outra coisa: um menino que já sabia, de algum jeito, o que o esperava na arena, e que ainda não tinha tamanho para isso. A singularidade não aparece de repente aos quarenta anos. Ela vai deixando pistas desde sempre. Nós é que demoramos para ler.
“Cada pessoa entra no mundo chamada”, diz Hillman. A pergunta, então, não é se temos um chamado. É se estamos dando a ele algum canal para se expressar.
A carreira como expressão de quem somos
E aqui chego ao tema que mais me interessa, por ofício: a carreira. Passamos a maior parte das horas acordadas trabalhando. Se existe um lugar em que a singularidade precisa encontrar passagem, é esse. Quando aquilo que fazemos no trabalho é a expressão de quem somos, tudo funciona melhor. A energia sobra em vez de faltar. O esforço continua existindo, mas deixa de ser um peso e vira uma forma de estar inteiro. Quem vive isso conhece a sensação: os dias são longos, e mesmo assim a gente não quer que acabem.
O contrário também é verdade. Quando a carreira caminha para longe da bolota, o preço aparece. Vem como cansaço que o fim de semana não resolve, como irritação sem motivo claro, como aquela pergunta incômoda na segunda-feira de manhã. Já vi muito executivo competente, bem pago e reconhecido chegar à minha frente com essa pergunta na cara, sem saber nomeá-la. Não era falta de sucesso. Era sucesso construído longe de si mesmo.
Porque esse é o ponto que Hillman me ensinou e que a prática confirmou: o sucesso mora mais perto da singularidade do que longe dela. Não é uma frase bonita. É uma observação sobre como as coisas funcionam. Os melhores líderes que conheci não eram os que se adaptavam a qualquer cargo. Eram os que tinham encontrado o cargo, ou o tinham moldado, até ele parecer com eles. A carreira, nesses casos, não é uma escada que se sobe. É um canal por onde algo que já existia encontra um jeito de sair.
O papel dos líderes no desenvolvimento de pessoas
Para quem lidera, isso muda a tarefa. Desenvolver pessoas não é preencher lacunas numa lista de competências. É ajudar cada um a reconhecer a própria bolota e a encontrar, dentro da empresa, o terreno onde ela pode crescer. Às vezes isso significa mudar alguém de função. Às vezes significa aceitar que a função certa para aquela pessoa não existe ali, e dizer isso com honestidade.
Mas quero fazer uma ressalva, e ela também vem de Hillman. A bolota não é um cargo. O chamado não é uma descrição de função. O que ele descreve é algo mais amplo: um jeito de ser, um caráter, uma imagem que pede para ser vivida. Ela pode se expressar no trabalho, e deve. Mas também se expressa no modo como criamos os filhos, em como cuidamos de um amigo, na causa que abraçamos, no que fazemos com as mãos quando ninguém está olhando. Hillman vai buscar seus exemplos em artistas, políticos, cientistas, e também em gente comum cuja vocação nunca virou profissão. A singularidade é maior do que qualquer empresa consegue abrigar.
Por que a carreira não pode definir toda a nossa identidade
Digo isso porque vejo um erro frequente, e já cometi esse erro. É colocar nas costas da empresa, e da carreira, toda a responsabilidade por dar vazão a quem somos. Quando isso acontece, qualquer frustração profissional vira uma crise de identidade. Uma reorganização, um chefe difícil, um projeto que não vingou, e de repente a pessoa não sabe mais quem é. É peso demais para um só canal.
A conta que me parece justa é esta. A carreira não pode estar longe da nossa singularidade, isso adoece. Mas ela também não pode ser a única a se responsabilizar por ela. O carvalho tem muitos galhos. Se a empresa onde trabalhamos é um deles, ótimo. Se for o único, alguma coisa está errada, e não necessariamente com a empresa.
Numa entrevista que assisti certa vez, Zygmunt Bauman disse que a vida perfeita foi a de Sócrates, porque não foi uma vida imitada de ninguém. Fiquei com essa frase. Ela diz, com outras palavras, o que Hillman diz com a bolota. O problema não é a vida que levamos ser difícil. É ela ser de outra pessoa.
O Marcelo me recomendou esse livro há muitos anos. O que recebi, na verdade, foi uma pergunta que nunca mais parou de me acompanhar: o que havia na sua bolota antes de a história começar, e por onde isso está saindo hoje? Há uma vida sob medida lá fora, esperando por cada um de nós. O caminho não é inventá-la nem copiá-la de alguém. É revelá-la. E ela nunca estará só na carreira. Está no código inteiro da nossa existência, que precisa ser um conjunto de canais, e não um só, por onde a nossa singularidade chega ao mundo. Deixo a pergunta com você.
Fonte exame
Foto: Magnific













