Ano da covardia e crueldade: uma mulher morta a cada 10 dias em 2023 no DF

Com recorde de feminicídios, DF registra 32 vítimas este ano. Especialista ouvida pelo Correio afirma que omissão da sociedade contribui para a manutenção de ciclos de agressões e abusos

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Mirian, Jeane, Regiane, Denise… poucas linhas não dariam conta de listar a quantidade de mulheres assassinadas em razão da violência de gênero. Até agora, o Distrito Federal contabilizou 32 feminicídios — o maior registro anual dos últimos cinco anos (ver quadro) e um aumento de 88,2% em comparação a 2022, quando foram registrados 17 casos. Os dados são do painel Monitoramento do Feminicídio no DF, da Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF).

Se para a sociedade os números chocam, para as mulheres são a confirmação de que, nem em casa, é possível sentirem-se seguras. Dos 32 feminicídios, 28 foram cometidos por maridos, namorados ou ex-companheiros. Em novembro, Sofia Antunes e Brenda Michnik, ambas de 20 anos, foram assassinadas por seus parceiros, em Planaltina. Entre um caso e outro, a diferença foi de três dias.

Além dos sonhos não realizados, as mulheres também deixam o vazio para aqueles que ficam. O ódio dos feminicidas respinga em filhos, mães, irmãos e amigos. Neste ano, o crime deixou o rastro de 67 órfãos, dos quais 44 são menores de idade. Na maior parte dos casos, o meio empregado foi arma branca, comum nos contextos de violência contra a mulher, segundo Janaína Penalva, professora de direito constitucional e teoria feminista, da Universidade de Brasília (UnB). “Os agressores usam armas brancas, porque precisam marcar o corpo das mulheres, precisam deixar em sua carne o poder de morte que possuem. Não é uma coincidência e nem uma demonstração de que o crime aconteceu em casa, mas uma inscrição da violência de gênero”, destacou.

Redes de proteção insuficientes são, para Janaína, uma das razões pelas quais o número de casos é tão alarmante. Como exemplo, cita a falta de equipe multiprofissional nas Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (DEAMs), visando prevenir a escalada de violência quando as mulheres estão ameaçadas. Outro fator de relevância é o perfil conservador da população do DF. “O exercício da liberdade sexual e a autonomia no campo das relações afetivas é justificativa comum para a violência contra as mulheres. A moral conservadora acredita que a vida é melhor quando elas estão em posições tradicionais de submissão e subordinação. Quando elas não aceitam essa condição e desafiam a ordem patriarcal, são mortas”, explicou a professora.

“Saudade da companhia”

Quando a dona de casa Ana Maria Ferreira, 38, recebeu a notícia do assassinato da irmã, não teve dúvidas de quem estaria por trás do crime, ocorrido em 2021. Isabel Ferreira, 37, morreu após ser atingida com uma facada no tronco, em casa, na Ceilândia. Deixou três filhos. O marido, Marcos Soares Pereira, 36, foi preso em flagrante. Natural do Maranhão, a auxiliar de limpeza era proibida de entrar em contato com os parentes e tinha o celular rastreado pelo agressor. “Ele não a deixava se aproximar. Então, ela só ligava para a gente escondido e rápido. Ele a manipulava para que ela sentisse culpa, mesmo sendo agredida”, lamentou a irmã mais nova.

A dona de casa, que também sentiu na pele a dor de uma relação abusiva, sentia-se inconformada por não conseguir tirar a irmã desse contexto. “Eu também morava com um homem violento, mas, na primeira agressão, não quis mais dar continuidade no relacionamento. Eu dizia a ela que nosso pai nunca bateu na gente, então, eu não aceitaria que meu marido fizesse isso comigo”, recordou.

Com o assassinato de Isabel, Ana Maria entrou em depressão. “Foi como se tivessem enterrado parte de mim”. Mesmo assim, guarda com carinho as boas memórias que tem da irmã. “Sinto saudade da companhia dela, que era tão carinhosa antes de conhecer seu agressor. Ela era alegre, boa mãe e muito trabalhadora. Que Deus a tenha em um bom lugar”, finalizou a irmã, saudosa.

Tratamento rude

Quando Carla (nome fictício), 56, se casou, em 1989, as promessas não poderiam ser melhores: casa própria, filhos, autonomia para trabalhar e um parceiro leal. Apesar das discussões “típicas de todo casal”, os dois primeiros anos de união foram “bons”, com a conclusão da graduação em letras e com o nascimento da primeira filha. À medida que os trabalhos domésticos aumentavam, a profissão de Carla, fora de casa, era colocada em segundo plano. “Ele insistia para que eu, grávida do segundo filho, abdicasse das salas de aula para me dedicar somente ao lar e às crianças. Aos poucos, começou a me tratar de forma rude. Por receio de perdê-lo, saí do emprego”, detalhou.

A primeira agressão ocorreu quando ela descobriu uma traição e tirou satisfações com o marido. “Bêbado, ele me empurrou e jogou o telefone em mim. No dia seguinte, chorou, disse estar arrependido e prometeu jamais fazer o mesmo. Hoje, percebo que aquele momento marcou o início de um ciclo de violência que durou por quase 15 anos”, relatou. Com o passar dos anos, Carla foi humilhada, ameaçada, agredida e estuprada. “As traições tornaram-se o de menos”, ela resumiu.

De família religiosa e conservadora, chegou a desabafar com a mãe sobre a rotina de medo que vivia, pediu ajuda para se separar, mas não teve apoio. “Na frente das pessoas, ele agia normalmente. Em casa, dizia que, se eu me divorciasse, mataria a mim e a minha família. Um dia, tentou me estrangular na cozinha”, recordou. Mas, com o incentivo dos filhos e de uma antiga amiga, conseguiu dar fim à relação. Aos poucos, se fortaleceu. Voltou a trabalhar e desenvolveu sua independência. “Acredito que a chave para se livrar de uma situação de violência é ter autonomia financeira. Porém, o acolhimento da família faz toda a diferença”, concluiu.

Por Letícia Mouhamad do Correio Braziliense

Foto: Reprodução/Internet / Reprodução Correio Braziliense