A luta de quem vive nas ruas do DF e enfrenta a temporada de chuvas

O Correio ouviu relatos de pessoas em situação de rua, que contam perder roupas, cobertores e até documentos

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As fortes chuvas que atingem o Distrito Federal desde o início do ano causam transtorno a muitos moradores. A capital segue em estado de emergência. E uma das parcelas da população que mais sofre em períodos como esse é a de pessoas em situação de rua. Para elas, é a época mais difícil e cada uma se protege como pode.

O Correio foi às ruas para observar como as pessoas em situação de rua estão lidando com o período chuvoso. O pernambucano Santana**, 44, vive dessa maneira há 25 anos (um ano e meio em Brasília, no Centro Pop), após a perda de sua mãe. Ele conta que momentos chuvosos são os mais difíceis. “O dinheiro não importa. Só queria sossego e uma moradia. Sempre faço as ‘casas’ com muita atenção e reforço. Quando vem uma tempestade, o abrigo não resiste”, lamenta. “É um ciclo que nunca se encerra. Felizmente, nós moradores apoiamos uns aos outros. Os documentos, roupas e cobertores, todos se vão com a água. É muito difícil levantar no outro dia”, desabafa.

André**, 29, também vive na região do Centro Pop, é do Pará e está em situação de rua desde o início da pandemia, quando perdeu o emprego e não conseguiu encontrar outro. Apesar de ter familiares no DF, o rapaz afirma que não costuma procurá-los em períodos de chuva e prefere não manter muitos pertences, exceto o básico, como poucas mudas de roupa. Isso, segundo ele, o previne de grandes perdas com os temporais. “Recebemos doações por aqui, fazemos manutenção de lençóis, lavamos, mas, nas chuvas, costumo ficar em abrigos”, comenta.

O Setor Comercial Sul foi o local escolhido por Marcelo**, 54, para se abrigar das precipitações. Pai de dois filhos, de 24 e 12 anos, ele relata que vive nas ruas há pelo menos três anos e que os dias chuvosos o obrigam a dormir em locais cobertos. “Procuro esconder meus pertences para não ser furtado”. explica. Marcelo conta que é muito comum outros moradores furtarem cobertores e roupas quentes em momentos como esse. “Os períodos de chuva e frio são muito complicados”, avalia.

Solidariedade

Fundador do instituto Barba na Rua, Rogério Barba afirma que, durante o período de chuva, o trabalho de sua equipe em favor daqueles que estão em vulnerabilidade extrema requer atenção maior e mais cuidado. “A chuva molha o cobertor e a roupa da população de rua, então, a gente redobra a atenção nas campanhas, porque tem um consumo maior, tanto de cobertores quanto de roupa”, ressalta. “Fazemos esse trabalho para tentar amenizar o sofrimento dessas pessoas, principalmente nesse momento de chuva. Os cobertores são caros e, muitos deles, a gente compra, pois, às vezes, não recebemos doação”, lamenta.

Érica Cidade, coordenadora de comunicação do Instituto No Setor, afirma que a entidade sempre mantém recebimento de roupas e itens de frio como cobertores. “A campanha mesmo que a gente faz, em que recebemos muitos itens, acontece durante o inverno. No período de chuvas, costumamos fazer apelos por meio das redes sociais, mostrando onde está chovendo mais”, comenta. Érica destaca que o instituto centraliza as doações — que são recebidas pela mobilizadora social do No Setor, Bruna Duarte. “Ela recebe às segundas, quartas e sextas, das 10h às 17h, na sede do instituto”, reforça. Em caso de dúvidas, os interessados em doar podem entrar em contato com a Bruna pelo telefone 61 99627-5837.

Desafios

Coordenadora do curso de serviço social do Ceub, Larissa Araújo Matos comenta que um dos principais desafios ao se pensar políticas para que a população em situação de rua enfrente os períodos de chuva no DF começa pela falta de informações sobre quem é essa população. “É preciso incentivar e investir em pesquisa para conhecer o perfil e agir de acordo com suas reais demandas”, alerta. “Nos períodos de chuva, a ação do governo precisa ser de prevenção a situações que podem colocar em risco a saúde e a vida dessas pessoas”, reforça (leia Atitudes para o enfrentamento).

Larissa comenta que não existe uma solução definitiva para essa demanda, pois isso passa por uma nova forma de relações sociais e de sociedade. Para a especialista, ampliar o atendimento na rede de serviços, a exemplo do serviço de acolhimento institucional, é outra forma do governo local aliviar a situação dessa população. “É um acolhimento imediato e provisório à população em situação de rua e, nos períodos de chuva, pode ser ampliado”, ressalta. “Além disso, pensar programas e ações assistenciais que visem atender às necessidades imediatas desse grupo social e fornecer alimentos, roupas, kits de higiene e cuidados médicos”, enumerou Larissa.

Força-tarefa

Em nota, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) afirmou que o Serviço Especializado em Abordagem Social da pasta acompanha as pessoas em situação de rua no DF, de acordo com localidades previamente mapeadas, sobretudo nos períodos de chuvas, quando a demanda aumenta. Nesse caso, de acordo com a pasta, é instituída uma força-tarefa das 28 equipes do serviço de abordagem com o apoio dos 12 Centros Especializados de Assistência Social (Creas) e articulação com políticas públicas de outras áreas, como trabalho e renda, justiça e cidadania e saúde.

A Sedes ressaltou que os profissionais fazem um acompanhamento evolutivo, identificando suas demandas, oferecendo benefícios e acolhimento em unidade socioassistencial. A secretaria afirmou ainda que consta em seu planejamento para os próximos anos a implantação de iniciativas, como o Programa Moradia Primeiro, que visa, entre outras ações, instalar pessoas em situação de rua em casas alugadas; ampliar o serviço de acolhimento institucional; e aumentar a cobertura do Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua, com a inauguração de novos Centros Pop em áreas de grande demanda.

*Estagiários sob a supervisão de Malcia Afonso

**Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados

Por Arthur de Souza do Correio Braziliense

Foto: Kayo Magalhães/CB/D.A Press / Reprodução Correio Braziliense