Conheça histórias de pessoas em situação de rua retiradas da 903 Sul

Foi a primeira ação do GDF, dentro do Plano Distrital de Acolhimento das Pessoas em Situação de Rua

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Sentado em uma cadeira na calçada, com a cabeça próxima a um hidrante, Edmundo Mendes de Souza, 54 anos, observava os agentes do DF Legal despedaçavam restos de madeira e de papelão dos 19 barracos retirados da 903 Sul na manhã desta sexta-feira (15/3). A operação de desocupação foi um piloto do plano de ação distrital de redução da população em situação de rua. Edmundo está entre as 24 pessoas que foram retiradas do local. Dessas, 20 aceitaram morar em abrigo disponibilizado pela Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) e as outras quatro não têm destino certo. Para aqueles de fora do DF, a promessa da pasta é de um auxílio para comprar a passagem de volta.

Esta é a esperança de Edmundo. “Agora que eles tiraram esses barraquinhos, na rua eu não vou ficar. Eu vou à pé, de carona, do que for, mas eu volto para casa”, disse. Nascido em Irecê, cidade do sertão da Bahia, lá, Edmundo tem uma casa, uma roça e quatro filhos. “Não tenho coragem de contar a eles que estou vivendo na rua. Tenho vergonha. Parei de dá notícia há uns 8 meses, quando cheguei aqui”, completou. Depois de ficar viúvo, o migrante nordestino veio à Brasília tentar uma vida melhor. “Trabalho em sítio, em chácara, fazendo qualquer tipo de trabalho braçal”, contou.

Edmundo levou dois meses para chegar na capital, veio de carona. Com R$ 2 no bolso e três mochilas cheias de roupa, o sertanejo disse que o maior arrependimento da vida dele foi morar em Brasília. “O sofrimento que estou passando aqui, nem bicho deveria passar. Quero voltar para casa, ficar lá com minha família. Se arrependimento matasse, eu não tinha mais nem osso”.

A primeira ação do plano distrital de redução da população de rua começou com agentes da Sedes tentando convencer os moradores a deixar aquele local e, depois realizar a desocupação. As 24 pessoas que estavam no local se recusaram a nas abordagens anteriores. Por volta das 10h desta sexta-feira (15/3) alguns moradores dos barracos atearam fogo nas próprias moradias improvisadas, entre gritos e falas de revolta. O Corpo de Bombeiros estava presente no local e logo controlou o incêndio. As estruturas  dos barracos foram recolhidas e enviadas à reciclagem. O pertences dos 24 moradores do local foram recolhidos e levados para o depósito do DF Legal, onde podem ser resgatados gratuitamente.

Marceni Amaral Cerqueira, 50, voltou há 15 dias do abrigo para a calçada da 903 Sul. Há 27 anos vivendo  em situação de rua, foi a primeira vez que ela aceitou ir ao abrigo, tendo passado dois meses lá. Negando-se a voltar, ela argumentou: “Eu não tenho nada no abrigo, o que vou fazer lá? Depois, a gente volta para rua do mesmo jeito. E ainda está empestado de percevejo e pessoas com doenças transmissíveis”. Ao ser questionada, Marceni afirma que se sente mais segura na rua do que nos abrigos. “Falta os governantes verem o lado da gente. A gente não está na rua porque gosta, nem porque quer”, disse, além de reclamar da burocracia para ter acesso às políticas públicas de habitação.

Ao Correio, a Sedes respondeu que não tem ciência da informação sobre infestações no abrigo. A pasta afirmou ainda que o local passou por manutenção nos últimos meses.

“Eu não tenho para onde ir”, contou Marta Cecília Marques, 21 anos. Para ela, que não tem nenhuma família, o abrigo também não é uma solução viável. “Eu sou analfabeta, só estudei até a 4ª série. Também sou ex-presidiária, é muito difícil consegui trabalho. Entrei agora no Renova com a esperança de arrumar a minha vida e voltar a estudar”, disse. “Mas hoje eu já não fui trabalhar por conta dessa “derruba”, eu vou deixar as minhas coisas aonde?”, questionou.

Pets
As secretarias de Saúde e de Meio Ambiente também estavam presentes durante a operação com atendimento de saúde às pessoas em situação de rua e aos cachorros delas. Foram disponibilizadas vacinas contra a raiva e inscrição em castração gratuita. Lúcia Moreira, 40, tem três cães. Uma cadela mais velha, chamada Piranha, e seus dois filhotes de 45 dias. “Eu vou ficar com eles. Aonde eu for, levo eles comigo”. Acampava há alguns meses em frente ao Centro Pop. Não aceitou ir para o abrigo por não querer abandonar os pets. A matogrossense vive há cinco anos em situação de rua. Antes morava no gramado da torre de TV. Chegou à capital com o ex-marido. Ele não conseguiu emprego e voltou ao estado natal, deixando-a aqui sem documentação. “Ainda não sei onde vou morar”, diz.

Durante a operação, estiveram presentes também a Secretaria de Segurança Pública e de Justiça e Cidadania. Outros órgãos participaram da ação, como o Serviço de Limpeza Urbana, a Novacap, a Codhab, o Detran-DF, a Polícia Militar, a Polícia Civil e o Conselho Tutelar.

Plano

Na última quinta-feira (14), os secretários da Casa Civil, Gustavo Rocha; de Desenvolvimento Social, Ana Paula Marra; de Proteção da Ordem Urbanística, Cristiano Mangueira, e de Comunicação, Weligton Moraes, apresentaram um plano de ação para reduzir a população de rua no Distrito Federal, com ações de acolhimento. A operação da retirada dos barracos da 903 Sul foi a primeira a ser realizada.

Por Carolina Braga do Correio Braziliense

Foto: Ed Alves/CB/DA.Press / Reprodução Correio Braziliense