Quatro princípios da governança corporativa para profissionalizar a gestão de empresas

Sem essas regras, 72% das empresas familiares no Brasil chegam à sucessão sem plano definido

No Brasil, 90% das empresas têm perfil familiar, segundo o IBGE. A maioria não sobrevive ao tempo. Levantamento do Banco Mundial mostra que apenas 30% dessas empresas chegam à terceira geração, e só metade delas segue de pé depois disso. 

Uma pesquisa do IBGC ajuda a explicar o motivo: 72% das empresas familiares brasileiras não têm um plano de sucessão para os cargos-chave.

O problema raramente é a falta de mercado ou de capital — é estrutural. Sem regras claras sobre quem decide o quê, sócios e herdeiros disputam espaço, contas pessoais se misturam com as da empresa e decisões importantes ficam concentradas em uma única pessoa. 

A governança corporativa existe para resolver exatamente isso, e se apoia em quatro princípios que funcionam como um sistema de proteção contra a própria informalidade.

  1. Transparência: o alicerce da confiança
    O primeiro princípio é a transparência, entendida como o compromisso de manter informações estratégicas acessíveis para sócios, gestores e, quando cabível, colaboradores e parceiros. Dados financeiros, relatórios de desempenho e decisões relevantes deixam de ficar no controle informal de uma pessoa e passam a circular de forma organizada.

Isso tem efeito prático fora da empresa também. Bancos e investidores avaliam risco justamente pela previsibilidade que a transparência entrega: negócios com informação clara e documentada têm mais facilidade para acessar crédito e atrair capital.

  1. Equidade: tratar sócios e herdeiros com as mesmas regras
    O segundo princípio trata igualmente todos os sócios, colaboradores e partes interessadas, independentemente do tempo de casa ou do grau de parentesco. 

Em empresas familiares, esse é justamente o ponto que mais gera atrito: alguém sente que decide menos, recebe menos ou tem menos voz do que deveria, mesmo com participação equivalente na sociedade.

A equidade não elimina hierarquias, mas evita que interesses individuais se sobreponham ao coletivo. Na prática, isso reduz disputas societárias e cria as condições para que a sucessão aconteça sem ruptura, o cenário que falta em sete de cada dez empresas familiares brasileiras hoje.

  1. Prestação de contas: monitorar antes que o erro vire crise
    O terceiro princípio, conhecido como accountability, exige que decisões sejam registradas, receitas e despesas sejam justificadas e responsabilidades sejam assumidas, tanto nos acertos quanto nos erros. Não é um exercício anual: funciona melhor como rotina.

Empresas que praticam prestação de contas identificam falhas mais rápido e corrigem rumo antes que um problema pequeno vire uma crise de caixa ou de confiança entre sócios. 

É também o princípio que mais depende de estrutura, o que explica por que costuma ser o primeiro a desaparecer quando a empresa cresce sem preparo técnico no comando.

  1. Responsabilidade corporativa: o compromisso além do resultado
    O quarto princípio amplia o olhar da gestão para além do balanço financeiro, incorporando o cumprimento da legislação, o impacto ambiental e o papel social do negócio. 

Empresas que adotam esse compromisso tendem a fortalecer reputação e a se tornar mais atrativas para clientes, fornecedores e futuras gerações que vão herdar o negócio.

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