Inteligência emocional pode transformar inveja em impulso para crescer na carreira

Estudo indica que regular emoções pode ajudar a transformar comparações desconfortáveis em motivação para evoluir

Ver um colega ser promovido, receber reconhecimento ou conquistar uma oportunidade desejada pode provocar desconforto — mesmo quando existe admiração envolvida. Um novo estudo sugere que a diferença não está necessariamente em sentir ou não inveja, mas no que o profissional faz depois dela. 

Pessoas com maior capacidade de regular emoções apresentaram mais tendência a transformar a comparação em motivação para melhorar.

A pesquisa, publicada na revista científica Personality and Individual Differences, analisou 442 adultos francófonos e encontrou uma associação entre maior capacidade de regulação emocional e a chamada inveja benigna — aquela que leva o indivíduo a tentar melhorar a própria posição. 

Não houve associação estatisticamente significativa entre essa habilidade e a redução da inveja maliciosa, marcada por hostilidade e desejo de diminuir a vantagem do outro.

A descoberta ajuda a colocar a inteligência emocional em uma perspectiva menos idealizada. Profissionais emocionalmente inteligentes não deixam necessariamente de sentir emoções desconfortáveis. O diferencial pode estar na direção que dão a elas. As informações foram retiradas do PsyPost.

O estudo separou a inveja em dois tipos
A inveja costuma ser tratada como uma emoção essencialmente negativa, mas a literatura psicológica distingue dois caminhos possíveis.

A inveja benigna aparece quando a vantagem de outra pessoa funciona como referência para o próprio desenvolvimento. Em vez de desejar que o outro perca aquilo que conquistou, a reação é tentar alcançar um resultado semelhante.

A inveja maliciosa, por outro lado, está associada à hostilidade e à vontade de reduzir a vantagem do outro.

Nos dois casos, a emoção é desagradável. O que muda é a consequência e é justamente essa diferença que interessa ao ambiente profissional. Uma promoção pode produzir a pergunta “o que essa pessoa fez para chegar lá?” ou a reação “ela não merecia”. 

As duas respostas partem de uma comparação semelhante, mas levam a comportamentos completamente diferentes.

Regulação emocional aparece como parte da resposta
O estudo utilizou uma medida baseada em desempenho para avaliar a capacidade de regulação emocional dos participantes, em vez de perguntar apenas se eles se consideravam bons em lidar com emoções.

Os voluntários precisaram avaliar estratégias para administrar situações emocionalmente exigentes. Depois, responderam a uma escala sobre tendências de inveja benigna e maliciosa.

Mesmo depois de controlar fatores como autoestima, idade, gênero e padrões de apego, a capacidade de regulação emocional continuou associada à inveja benigna.

O resultado não significa que inteligência emocional faça a inveja desaparecer.

A interpretação dos pesquisadores é mais específica: pessoas com maior capacidade de regular emoções podem ter mais facilidade para orientar aquele desconforto para uma resposta construtiva.

Como transformar inveja em um plano de desenvolvimento
Quando uma comparação provocar desconforto, três perguntas podem ajudar a transformar a reação em algo mais concreto:

O que exatamente eu gostaria de ter também?
Pode ser reconhecimento, remuneração, autonomia, influência ou domínio técnico.

O que essa pessoa fez que eu ainda não faço?
A resposta precisa sair do julgamento pessoal e entrar no comportamento observável: buscou determinado projeto, desenvolveu uma habilidade, construiu relacionamentos ou assumiu responsabilidades diferentes.

Qual é a menor ação que posso tomar agora?
Pode ser pedir feedback, iniciar um curso, conversar com alguém da área ou assumir um projeto que desenvolva determinada competência.

Esse raciocínio não garante que a comparação desapareça. O objetivo é impedir que ela permaneça apenas no campo da frustração.

O estudo não prova causalidade
Os resultados também exigem cautela.

A pesquisa foi transversal, ou seja, analisou os participantes em um único momento. Por isso, não permite concluir que maior regulação emocional cause inveja benigna. Também é possível que pessoas que habitualmente transformam comparações em desenvolvimento acabem fortalecendo suas habilidades emocionais ao longo do tempo.

A amostra também era predominantemente feminina, e os autores apontam a necessidade de replicar o estudo com grupos mais diversos e desenhos experimentais ou longitudinais.

Ainda assim, a pesquisa acrescenta uma hipótese relevante para a carreira: emoções desconfortáveis não precisam ser vistas apenas como obstáculos.

Fonte exame
Foto: foto/Thinkstock