Festival de Brasília retoma os dias de glória do cinema nacional

Em sua 59ª edição, o Festival de Brasília toma conta do Cine Brasília deste sábado (12/9) até 19 de setembro e reforça a importância do evento na história da produção audiovisual brasileira

O Cine Brasília abre as portas e estende o tapete vermelho para a 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O evento — que recebeu e formou estrelas como Ruy Guerra, Cacá Diegues, Glauber Rocha, Arnaldo Jabor, Julio Bressane e Eduardo Coutinho — se consolida no cenário nacional como o mais longevo do gênero do país. Nesta edição, que começa neste sábado (12/9) e vai até 19 de setembro, as homenageadas serão a atriz Julia Lemmertz, a diretora e produtora Tata Amaral, e a museóloga e conservadora audiovisual Fernanda Coelho.

Vencedora de Melhor atriz coadjuvante pelo filme Cor do seu destino, em 1986, Julia Lemmertz mencionou o longa e relembrou que, à época, não pôde vir a Brasília receber o prêmio porque a mãe, Lilian Lemmertz, tinha falecido. Esse candango está na minha estante, mas eu não o recebi. Subir nesse palco e receber esse prêmio tão importante, tão aguerrido, tão corajoso é uma honra”, afirmou.

Além disso, a veterana atriz aproveitou o espaço para falar sobre a classe artística. “Nós somos uma raça única, corajosa, e que precisa ter muito fôlego, porque a luta é grande, a gente não acaba ela. A gente está no meio de um furacão, um pouco causado talvez pela nossa inadimplência em perceber os sinais das coisas que estavam vindo, mas precisa seguir contando histórias e preservando a nossa memória”, destacou. 

Resistência política

Cineasta formado na UnB, José Eduardo Belmonte ressalta que o cinema nunca está separado do mundo em que é feito: “Um festival como o de Brasília é um espaço para que os filmes não sejam apenas exibidos, mas discutidos, confrontados e entendidos dentro do país que os produziu. Essa conversa é parte da experiência cinematográfica”. 

O realizador destaca que um festival não pode ser apenas uma sequência de sessões. “É um lugar de encontro, de formação e de disputa de ideias. Manter o Festival de Brasília vivo é preservar um espaço em que o cinema brasileiro pode se olhar, se questionar e encontrar seu público. Serve ao país e à cidade, que também tem que se ver na tela, discutir suas questões, seus muitos modos de fazer cinema. Em momentos de disputa, talvez seja mais importante que esses espaços existam”, defende.

A permanência do festival mostra que o cinema brasileiro tem uma capacidade surpreendente de sobreviver às circunstâncias. “O festival de Brasília particularmente atravessou diferentes governos, crises econômicas e transformações culturais porque existe uma necessidade real de todos os ‘brasis’ se encontrarem e pensar sobre si mesmo. O melhor lugar é um festival na capital. A permanência do festival é também uma forma de memória e também resgatar a utopia que fez a cidade”, destaca o cineasta.

A cineasta e professora da Universidade de Brasília (UnB) Mariana Souto afirma que o festival talvez seja o mais importante do país. “Ele é totalmente voltado para o cinema brasileiro. Isso é bastante significativo. Questões políticas e sociais vão aparecer nos filmes, nos debates. Momentos turbulentos da história acabam reverberando nos filmes e é um festival que promove muitos debates”, comenta.

Para ela, o evento também se transforma em um espaço de interlocução entre críticos, jornalistas, cineastas e público. “Um festival de cinema é um lugar de sociabilidade, de congregar pessoas ao redor do cinema, é um lugar muito vivo. É um lugar de encontro de gerações muito diferentes, já que é o festival mais antigo, tem pessoas que estão frequentando há anos e tem gente que está chegando pela primeira vez, como muitos dos meus estudantes da UnB”, conta Mariana, que, no ano passado, ofertou uma disciplina ligada à cobertura do festival e presenciou a nova geração de cineastas sendo estimulada.

Para Pablo Gonçalo, realizador e professor da Faculdade de Comunicação (FAC) da UnB, o festival de cinema de Brasília é considerado um patrimônio da capital e do país, atravessando e restruturando marcos históricos brasileiros como a ditadura militar e a redemocratização política do Brasil. No cenário audiovisual, apontou caminhos em momentos delicados na existência e longevidade do cinema nacional, como ocorreu quando houve o fechamento da Embrafilme. “Para além de sua força política social, o festival serve como ferramenta para a realização, distribuição fílmica e a democratização do acesso à cultura para a população brasiliense”, destaca.

O diretor Jimi Figueiredo irá lançar, nesta edição, o longa Histórias de terror e delicadeza, filme que fala sobre amor e sexualidade, além de trazer à tona a ditadura e a tortura. “O Festival de Brasília sempre foi um espaço de resistência cultural e política. Lancei vários filmes meus aqui, e é sempre um enorme prazer estar neste espaço de debate. O novo filme traz temas muito caros ao festival. É uma espécie de autoficção do próprio ator Chico Sant’Anna, e que as atrizes Dira Paes, Elisa Lucinda e Gabriela Correa abraçaram de coração”, conta.

Marcio de Andrade, diretor do longa Quando a coisa vira outra, em torno de Vladimir Carvalho, frequenta o festival desde os 12 anos. “E muitas vezes vi filmes sentado no chão do Cine Brasília, com plateias lotadas. Uma plateia que sempre se manifestou, uma plateia que sempre foi interessada nos filmes, que vaiava, que aplaudia. Era muito emocionante ver como essa plateia se comportava durante as sessões do festival”, relembra o diretor.

Para Marcio, o Festival de Brasília é um dos mais importantes no país pelo seu caráter político. “Tem uma importância pelos filmes que já apresentou, por toda a sua composição de também formar uma parte do cinema brasiliense. O comportamento da plateia sempre foi um guia para todos nós, para quem trabalha com cinema, quem faz cinema. A gente faz filme para o público, para ser visto pelo público. E participar desse festival é fundamental”, afirma.

Respiro cultural e estético

A diretora, produtora e roteirista Dácia Ibiapina afirma que o Cine Brasília é um patrimônio cultural do cinema brasileiro. “O FBCB é uma jóia cultural a ser preservada pelas gerações de cineastas e de espectadores que vão se sucedendo ao longo dos anos. A geração que planejou e construiu Brasília, que planejou e construiu a Universidade de Brasília, se deu conta de que a nova capital precisava de espaços de respiro cultural e estético”, conta.

A cineasta afirma que o cinema mudou muito desde então e que os grandes cinemas de shopping não atingem as populações de baixa renda. “As mudanças para o streaming também impactaram a sétima arte.  Ainda assim, o fascínio pelas grandes telas do cinema permanece. Eu acho essencial preservar o Cine Brasília e o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. São referências de Brasília”, conclui Dácia.

Moradora de Brasília há quase 1 ano, Amósùn esteve pela primeira vez no festival e trouxe o filho, Vicente, de 8 anos. Para ela, que trabalha no mercado audiovisual, o evento é oportunidade de conhecer o que tem sido produzido em diferentes lugares do país. Mas construir memórias afetivas e incentivar o gosto pelo cinema desde cedo é o maior motivo que a fez comparecer à abertura evento. “Viemos assistir A pele morta, que tem um protagonismo indígena na atuação. Ele vê muito desenho, animação, então o trouxe para vivenciar e conhecer outras linguagens. Ver um cinema com gente de verdade”, brinca a mãe.

Eduardo Tiago, 22, acompanhou de perto o festival pela terceira vez. Essa, no entanto, é diferente, porque o estudante de audiovisual da Universidade de Brasília (UnB) atuou, como técnico de som, em um dos curtas selecionados para a Mostra Brasília. “Sempre me sinto muito eufórico por estar aqui vendo cinema brasileiro em toda a sua potência”, celebra. O desejo dele é conquistar cada vez mais espaço no festival. “Hoje já vai dar para ver como é exibir um filme nesse grande lugar”, conclui.

Nilson Rodrigues, produtor cultural e empresário, ressalta que os festivais são fundamentais para o cinema brasileiro. “O de Brasília é um dos mais importantes. O Cine Cultura Liberty Mall estar recebendo o Festival reafirma a característica plural do cinema, que já abriga outros, como o europeu, o francês e o italiano”, afirma. 

*Estagiária sob supervisão de Patrick Selvatti

Fonte Correio Braziliense
Foto: Minervino Júnior/CB