Quando se vai a uma festa, há aquele dilema constrangedor: quando ir embora? Sair muito cedo pode significar perder momentos divertidos e conexões importantes. Ficar mais tempo do que deveria pode acabar sendo indesejável, muitas vezes sem a gente nem perceber.
Pode ser difícil e muito mais impactante avaliar o momento certo de pedir demissão de um emprego. Sair prematuramente acarreta riscos e o mesmo acontece se permanecer por muito tempo. Entretanto, Sanjay Khosla, pesquisador sênior e professor adjunto da Kellogg School, argumenta que, para subir na carreira, é melhor pecar por antecipação.
“Muitas vezes, as pessoas saem de um emprego corporativo quando já é tarde demais”, alerta o ex-executivo sênior da Unilever e Kraft International, que também é coach executivo. Khosla relembra a metáfora da festa e recomenda que se pense na saída quando o tempo na mesma empresa chegar ao equivalente ao que ele chama de “cinco para a meia-noite”, como no caso da Cinderela, e não quando faltam cinco minutos para o fim do expediente.
Em outras palavras, determinar quando uma experiência positiva atingiu seu auge e pode estar se aproximando do ponto de rendimento decrescente pode ser tão vital para a carreira quanto para a vida social.
Khosla identifica três sinais que podem indicar que você atingiu o ponto de cinco para a meia-noite na organização em que trabalha. É nesse momento que vale começar a planejar um desligamento elegante, em vez de permanecer por mais tempo do que o necessário e prejudicar suas perspectivas profissionais.
- Quando o seu crescimento fica estagnado
Uma forma de saber se a hora de partir se aproxima é observar se seu crescimento profissional dentro da organização está estagnado.
Khosla conta a história de uma executiva de alto escalão de uma grande multinacional.
Kátia (nome fictício) trabalhava na empresa havia mais de 20 anos, onde recebeu diversas promoções. Ela esperava se aposentar na companhia.
No entanto, Kátia começou a perceber que seu crescimento profissional dentro da organização havia estagnado. Ela também se preocupava com a possibilidade de alguns colegas serem promovidos antes dela para cargos mais altos. Dois deles foram convidados para uma conferência de liderança de vários dias, e ela não.
“Suas contribuições começaram a ser consideradas uma mera obrigação e ela sentia que era vista apenas como uma funcionária competente, e não como uma superstar”, diz Khosla.
Kátia contou a Khosla sobre suas preocupações, e ele a incentivou a começar a estudar opções externas. Ele a aconselhou: “Isso não significa que você precisa necessariamente aceitar outro emprego. Mas, se não abrir novas portas, sempre ficará com essa dúvida”.
Para buscar oportunidades alternativas, Khosla aconselha contar com o apoio de uma rede de pessoas que você conhece e em quem confia. Ele chama isso de “círculo de influência”. Um círculo de influência deve incluir colegas e gestores de dentro e de fora da empresa onde você trabalha.
Por fim, Kátia conseguiu o que Khosla descreve como um “emprego bem melhor” fora da empresa. O novo cargo a desafiou de maneiras que sua posição anterior já não conseguia e a levou a continuar crescendo, tanto pessoal quanto profissionalmente.
“Existe um mundo maior lá fora”, diz Khosla. “A maioria das pessoas fica tão imersa no próprio mundo que ele passa a ser tudo o que conhece. A mudança é difícil e incerta.”
- Quando o chefe não é bom
Muitas pessoas pedem demissão porque o gerente é ruim. Elas podem até gostar do trabalho e da empresa, mas uma liderança inadequada antecipa o momento do “cinco para a meia-noite”.
Khosla dá o exemplo de um funcionário talentoso, ambicioso e de alto desempenho, a quem chama de João. A ascensão de João na empresa foi notável. Ele admirava a cultura da organização e respeitava seus valores.
“O problema dele era o chefe, que simplesmente era tóxico”, diz Khosla.
João se irritava com o que considerava exigências descabidas e microgerenciamento por parte do chefe. Às vezes, recebia uma tarefa na sexta-feira com prazo para domingo à noite e, depois, o chefe sequer olhava o trabalho entregue.
O chefe também se apropriava do trabalho de João. Ele preparava uma apresentação, e o gestor dizia que era de sua autoria, recebendo os elogios sem mencionar a contribuição do funcionário.
Junto ao departamento de recursos humanos, João tentou verificar se seria possível mudar de departamento. A resposta não foi animadora.
“Ele estava bastante estressado”, lembra Khosla.
Khosla falou para João sobre a importância de reconhecer quando havia chegado ao ponto de “cinco para a meia-noite”. João conseguiu um emprego em outra empresa. Assim, por mais difícil que seja, sair de uma empresa de que se gosta para se afastar de um líder ruim pode valer a pena para o crescimento profissional.
“Pedir demissão e sair nunca é fácil”, diz ele. “Porém, a vida é muito curta para ficar preso a um chefe ruim por muito tempo.”
- Quando o conforto vira o maior risco
Às vezes, uma atividade que começou de forma estimulante pode se transformar em uma obrigação mecânica depois de ser dominada. Para Khosla, se você se acomodou demais na função, esse pode ser um sinal de que está se aproximando do ponto de “cinco para a meia-noite”.
Para progredir na carreira e deixar de sentir que está apenas cumprindo tarefas burocráticas, é importante reconhecer quando chegou a hora de sair da zona de conforto.
É o caso de Emília (nome fictício). Em um cargo de liderança em uma grande multinacional, ela gerenciava uma marca global e estava indo bem. Além disso, sentia-se muito confortável no trabalho.
“Na verdade, até demais”, diz Khosla. “Não havia mais nenhum desafio.”
Emília contou a Khosla que sentia falta de emoção e de aventura na vida profissional.
“Sinto que estou correndo em uma esteira, sem sair do lugar”, ele relembra a conversa com ela. “Consigo fazer meu trabalho de olhos fechados.”
Emília perguntou a Khosla se deveria continuar na função atual e manter a segurança ou se já havia chegado ao ponto de “cinco para a meia-noite”. Para Khosla, a resposta era clara.
Ela recebeu uma proposta para trabalhar em uma empresa menor do setor de tecnologia. A companhia não tinha os sistemas de apoio nem a burocracia da multinacional onde ela trabalhava. Em vez de desanimá-la, isso despertou seu interesse. Emília aceitou o novo emprego e, segundo Khosla, está satisfeita com a decisão.
“Esse salto foi arriscado”, explica Khosla. “Há muita coisa que precisa ser feita por conta própria. Há menos estrutura. Há mais ambiguidade. Agora ela trabalha muito mais, mas esse trabalho tem propósito.”
No caso de Emília, assim como em outros, Khosla recomenda ampliar o “círculo de influência” por meio de conversas com recrutadores selecionados.
Ele faz, no entanto, uma ressalva. Os recrutadores devem ser apresentados por contatos pessoais, e não procurados por e-mail sem indicação. No caso de Emília, o novo passo na carreira surgiu por meio da conexão de uma amiga.
“Você simplesmente demonstra seu interesse às pessoas que estão ao seu redor”, diz Khosla. “E fica em uma posição forte, porque não há urgência para sair da empresa.”
Se o pedido de demissão parece uma necessidade imediata ou algo para considerar mais adiante, o importante é avaliar as alternativas com antecedência.
“Não espere que uma crise obrigue você a tomar uma atitude”, diz Khosla. “Tente assumir, o máximo que puder e o mais cedo possível, o controle da sua carreira e da sua trajetória profissional.”
Fonte Exame
Foto: z_wei/Getty Images












