Empresas prolongam trabalho híbrido

Em janeiro deste ano, o trabalho totalmente presencial representava 94,8% das 7.010 vagas; o híbrido equivalia a 2,48%

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Teletrabalho, home office ou trabalho remoto.

Algumas das principais empresas do país têm prolongado o trabalho híbrido para motivar suas equipes. No entanto, quem procura por um novo emprego pode não conseguir essa flexibilidade.

Um levantamento da plataforma de recursos humanos Infojobs aponta que, apesar do crescimento na oferta de postos remotos e híbridos, as vagas totalmente presenciais abertas após a pandemia ainda são maioria.

Em janeiro deste ano, o trabalho totalmente presencial representava 94,8% das 7.010 vagas, o híbrido equivalia a 2,48%; já as vagas totalmente remotas eram 2,7%.

Mesmo com uma quantidade modesta de vagas, a pandemia provocou uma mudança nos anúncios da plataforma: na comparação com novembro do ano passado, o formato híbrido apresentou aumento de 16,6%, enquanto as vagas remotas cresceram 32,6%.

De acordo com o Infojobs, as áreas que mais oferecem vagas híbridas são as de comércio e vendas (34%), tecnologia da informação (10,5%) e finanças (10,2%).

Na avaliação da diretora executiva do Infojobs, Ana Paula Prado, o movimento de volta ao escritório está ganhando força com o avanço da vacinação e o arrefecimento da pandemia, e as empresas sentem que é preciso evitar problemas de integração.

“É preciso entender a fundo as questões que impedem políticas mais flexíveis, mas também mostrar para os funcionários a importância que a empresa enxerga no modelo de trabalho presencial, como os impactos para a cultura organizacional, o clima entre equipes e a liderança.”

Equilíbrio de expectativas é desafio para RHs de empresas

Questionadas pela reportagem, quatro das maiores empresas do país em receita, em 2021, disseram que suas áreas administrativas ainda não voltaram totalmente ao presencial –e não têm planos de que isso ocorra por enquanto.

A Petrobras, por exemplo, oferece o modelo de trabalho híbrido, com até três dias de trabalho remoto, para empregados que atuam no regime administrativo. Atualmente, cerca de 25 mil pessoas estão aptas a aderir ao modelo, mediante aprovação gerencial.

“Entendemos que o modelo híbrido é bastante adequado à realidade de quem atua no regime administrativo na Petrobras, possibilitando capturar o melhor dos dois mundos: atividades que se beneficiam das interações entre as pessoas no trabalho presencial e atividades que requerem tempo de foco no trabalho remoto”, diz a empresa.

A petroleira acrescenta que, se o trabalho presencial favorece as relações e as trocas entre as pessoas e a conexão com a empresa, o trabalho remoto favorece as atividades de foco e traz ganhos de qualidade de vida e produtividade.

Segundo Kricia Galvão, diretora de Pessoas e Organização na Braskem, após os desafios impostos pela pandemia, escutas internas e avaliação de tendências e melhores práticas em gestão de pessoas, a companhia adota três modelos de trabalho: presencial, flex office e híbrido.

“O modelo presencial é para atividades que somente podem ser desempenhadas nas instalações da Braskem; o flex office é para funções em que a presença é determinante para o sucesso das operações, mas que, em parte, podem ser desempenhadas remotamente em alguns dias da semana; o híbrido é para atividades que podem ser desempenhadas de forma remota, seguindo as normas de teletrabalho e com a presença no ambiente físico de oito dias por mês.”

Para ela, o modelo presencial favorece a interação entre as pessoas e o fortalecimento de vínculos, enquanto os modelos flexíveis, para as funções em que são possíveis, maximizam saúde integral e aumento de performance.

No caso da ArcelorMittal, do setor de aço e mineração, o modelo híbrido foi adotado em meio à pandemia, em 2021. A empresa pondera que o trabalho presencial amplia as conexões e as trocas entre os times e estimula a colaboração. Também não há planos de voltar ao 100% presencial para as funções que permitem outros modelos.

“Para tornar o ambiente de trabalho mais acolhedor, inovador e atrativo, a ArcelorMittal reformou suas instalações, criou espaços de convivência interativos nas unidades, artes nos muros e transformou sua sede administrativa em workplace.”

Durante os dois primeiros anos da pandemia, a Cargill, de produção e processamento de alimentos, pôs 3.000 colaboradores em esquema totalmente remoto, para as funções que permitiam esse modelo. Em 2022, a empresa começou a voltar gradualmente, mas sempre de forma híbrida e mais flexível do que antes da pandemia.

“Hoje, as funções administrativas atuam de forma híbrida. O modelo remoto e o trabalho presencial têm vantagens que, se somados, melhoram a qualidade de vida dos colabores e permitem maior conexão e interação. O presencial tem essa vantagem de permitir soluções rápidas para problemas do cotidiano, sem a necessidade de um e-mail ou ligação, e reafirma laços de confiança entre as equipes.

Outro levantamento do Infojobs, com o Grupo TopRH, aponta que 64,4% dos entrevistados que trabalhavam em home office e precisaram voltar ao presencial sentem que a qualidade de vida piorou.

Nos casos em que alguma ação foi criada pela empresa, os funcionários destacaram horário flexíveis (23,1%), ações pensando em bem-estar e saúde mental (21,8%) e restauração do escritório (18,4%).
Esse levantamento foi feito em abril, com 1.008 entrevistados, sendo que 55,9% se identificam com o gênero feminino e 45,9% com o gênero masculino, e a maioria era do Sudeste.

Segundo Prado, do Infojobs, os candidatos estão mais criteriosos para participar de processos seletivos e mais ainda para se manter em uma organização.

“Isso resulta nos dois principais desafios do RH hoje: atração e retenção de talentos. 25% dos jovens, entre 18 a 24 anos, permanecem dentro de uma empresa por menos de três meses, segundo o Ministério do Trabalho e Previdência.”

Para a executiva, o atual momento de readaptação ao escritório exige que o profissional de recursos humanos tenha uma escuta ativa para entender os desejos e necessidades do time e propor um meio-termo, alinhando o desejo da equipe e a necessidade da empresa.

“Talvez não um regime home office, mas possibilidade de um dia na semana à escolha do funcionário ou períodos de maior flexibilidade. A realidade é que uma vez que os benefícios do home office foram experimentados, dificilmente quem se identificou aceitará voltar para uma realidade do passado.”

Por FolhaPress via Jornal de Brasília

Foto: Agência Brasil/Divulgação / Reprodução Jornal de Brasília