Pilotos do tráfico: saiba como funciona o papel do batedor de droga

Cooptados por traficantes, os escoltadores de drogas tentam driblar fiscalizações policiais para auxiliar no transporte do carregamento dos entorpecentes. Modus operandi dificulta a criminalização dos suspeitos, mas polícia chega aos criminosos

0
100

Monitorados pela polícia, cooptados por traficantes, invisíveis para a população, mas punidos pela Justiça. Na posição de extrema precisão para as organizações criminosas, os “batedores” do tráfico atuam nas principais rodovias do país como “escoltadores” de carregamentos de drogas e têm a função de detectar qualquer tipo de fiscalização ou blitz policial. No Distrito Federal, megaoperações que desarticularam quadrilhas voltadas ao transporte e vendas de entorpecentes, como a que prendeu os “Irmãos do Pó” e o “Rei da Telebrasília”, chegaram aos batedores. O Correio detalha como atuam os aliciados para essa função, com base em entrevistas feitas com autoridades policiais que atuam na linha de frente contra o tráfico nacional e internacional de drogas.

Países como Colômbia, Peru, Bolívia, Venezuela, Paraguai, passando por cidades do Amazonas, Mato Grosso do Sul, entre outros estados, estão nas rotas do narcotráfico. A cocaína, a maconha, o skunk ou o crack armazenados em balsas e caminhões, que vêm por vias aquáticas, terrestres e até aéreas, são as mesmas drogas que abastecem organizações criminosas do Distrito Federal, como o Comboio do Cão, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e grupos menores de traficantes. O esquema é meticuloso e vai desde o contato com os fornecedores, a escolha e o amoldamento do veículo para o transporte até a admissão dos batedores.

A função desempenhada pelo batedor é relevante para os traficantes, tendo em vista que são pessoas que sabem dirigir, têm conhecimento dos postos policiais nas rodovias e vivem praticamente em função disso, avalia o delegado Rogério Henrique de Oliveira, chefe da Coordenação de Repressão às Drogas da Polícia Civil do DF (Cord/PCDF). Apesar de não participarem das decisões das organizações criminosas, os batedores têm funções definidas na cúpula e contribuem efetivamente para a entrada das drogas nos estados brasileiros e no DF. “São pessoas que, geralmente, não despertam a atenção da polícia e muitos não têm antecedentes criminais. São conhecidas pelos traficantes e acionadas quando necessárias.”

Contratação

Fontes policiais dizem que para entender como agem os batedores, é preciso compreender a articulação dos grandes traficantes no transporte das drogas. O primeiro a ser contratado pela organização é a “mula”, ou seja, a pessoa que traz o carregamento do entorpecente. Em alguns casos, são motoristas de caminhões aliciados pelo grupo.

Na operação Sistema, que prendeu os “Irmãos do Pó”, Gilmar Lopes e Gilberto Ribeiro, e o “Rei da Telebrasília”, Stefânio do Vale, em 2022, os traficantes usaram uma caminhonete e a transformaram em um veículo de serviço de abastecimento elétrico. A “mula” se disfarçou e usou um uniforme como se fosse um funcionário da empresa. O automóvel recebeu adaptações prévias no interior para carregar 200kg de pasta base de cocaína.

Na tentativa de fazer a droga chegar na capital, os traficantes contrataram um batedor. O homem, identificado como Jackson, dirigia um Fiat Strada e vinha quilômetros à frente da caminhonete. No entanto, os criminosos não esperavam que a caminhonete pudesse dar um problema técnico. Uma foto obtida pelo Correio mostra o veículo parado em uma via de Santa Terezinha de Goiás e o motorista tentando consertar o carro.

A caminhonete foi abordada pelos policiais da Cord minutos depois e, nela, encontrado o carregamento. A poucos metros atrás, estava o batedor. O fato de o batedor estar tão próximo ao veículo transportador da droga não é comum. Nesse caso em específico, o batedor acompanhava a caminhonete por causa dos problemas mecânicos.  

À frente do Grupo Antirroubo a Banco da Delegacia Estadual de Investigações Criminais de Goiás (GAB)/Deic), o delegado Eduardo Gomes explica que os batedores profissionais, geralmente, são encontrados nas rodovias do Mato Grosso do Sul e colocados a cerca de 5km a 10km à frente do caminhão ou do carro com o carregamento. “O batedor faz uma espécie de varredura na área e olha para ver se não tem uma blitz, viatura no acostamento. Eles vão e voltam na via e usam vários mecanismos para a comunicação com o criminoso que traz a droga, seja por mensagem, ligação e até rádios embutidos nos carros”, explica. Em uma viagem que levaria, por exemplo, 12 horas, os batedores costumam levar de dois a três dias para chegar ao destino final com a droga. No trajeto, é comum eles pararem em locais diferentes e a demora é proposital. Tudo isso para não perder a carga que, muitas vezes, resulta em um prejuízo milionário para o tráfico, segundo o delegado Rogério. Em troca do serviço, chegam a desembolsar até R$ 10 mil por viagem.

Articulação

Até pouco tempo, os traficantes optavam por escolher um casal para a função de batedor. O homem e a mulher se passavam por cônjuges, mas o disfarce ficou manjado e os criminosos adotaram novas formas, na intenção de despistar a polícia. O delegado Eduardo explica que são colocados dois, três e até quatro batedores à frente do “carro bomba”.

Até o carro usado pelo batedor é previamente acordado na organização criminosa. Muitos preferem alugar os veículos em locadoras. É o que explica o promotor Luiz Humberto, da 3ª Promotoria de Entorpecentes do Ministério Público (MPDFT). “Com o uso de documentos falsos, eles alugam os carros para bater a droga. Depois do serviço, chegam a trocar o veículo por drogas”, salienta.

Na rodovia, o batedor, ao perceber um ponto de bloqueio policial, faz o alerta. “Para evitar rastros de vínculos, eles comunicam a “base” primeiro, ou seja, o traficante responsável. Da base, o traficante repassa o recado ao motorista do veículo que leva a droga”, detalha o promotor. Em outros casos, basta o batedor falar uma única palavra para o motorista entender o aviso. Tudo isso por meio de um rádio instalado no carro. O equipamento chega a ficar tão escondido que, em alguns casos, só é possível localizá-lo na perícia.

Rastreio

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) atua em conjunto com a Polícia Judiciária nas operações contra o tráfico de drogas, seja em ações regionais ou internacionais. Apesar de notório o papel dos batedores, a identificação é complexa, avalia o coordenador-geral de combate ao crime da PRF, Allyson Simensato.

“Temos uma limitação de combate direto a essa função em específico. Em via de regra, são veículos que trafegam de forma lícita e pessoas aparentemente não suspeitas. Por sermos uma polícia ostensiva, o nosso trabalho é integrado à Polícia Judiciária, principalmente com o apoio do nosso banco de dados e sistema de monitoramento”, explica.

Algumas situações de flagrantes de batedores ocorrem após descobertas por irregularidades no automóvel ou em contradições da versão apresentada pelo motorista. A PRF dispõe de núcleos de combate ao crime, que engloba a fiscalização de crimes ambientais, direitos humanos, fraudes veiculares ou contra o patrimônio. O objetivo é estudar a peculiaridade de cada estado, entender as necessidades e criar operações nacionais, como, por exemplo, o reforço em rodovias rotas do narcotráfico.

Nas fronteiras com outros estados, os policiais do Comando de Operações de Divisas da Polícia Militar do Estado de Goiás (COD/PMGO) estão à frente no combate a ações criminosas de maior potencial ofensivo, como o tráfico de armas, de drogas, roubo de cargas, roubo a instituições bancárias, contrabando, descaminho, entre outros.

O delegado Eduardo, do GAB/Deic, fala sobre a dificuldade em vincular o batedor à organização criminosa. “É fácil dizer que não tinha nenhuma relação com a droga ou com o traficante. Então, a prisão acaba em cima do homem ‘bomba’, o que traz a droga. Quando fazemos a investigação da cadeia do tráfico, apuramos desde a compra e tentamos ao máximo ligar o batedor ao grupo. Conseguimos provar por meio de medidas investigativas, seja o telefone, uma câmera de segurança, entre outros.”

O promotor Luiz Humberto explica que, caso seja comprovado a função do batedor, o suspeito responderá por associação ao tráfico e pelo tráfico de drogas, assim como o traficante dono da substância.

Quem for condenado por tráfico de drogas pode pegar de 5 a 15 anos e para tráfico internacional de 5 a 20 anos de prisão.

O delegado Eduardo, do GAB/Deic, fala sobre a dificuldade em vincular o batedor à organização criminosa. “É fácil dizer que não tinha nenhuma relação com a droga ou com o traficante. Então, a prisão acaba em cima do homem ‘bomba’, o que traz a droga. Quando fazemos a investigação da cadeia do tráfico, apuramos desde a compra e tentamos ao máximo ligar o batedor ao grupo. Conseguimos provar por meio de medidas investigativas, seja o telefone, uma câmera de segurança, entre outros.”

O promotor Luiz Humberto explica que, caso seja comprovado a função do batedor, o suspeito responderá por associação ao tráfico e pelo tráfico de drogas, assim como o traficante dono da substância.

Quem for condenado por tráfico de drogas pode pegar de 5 a 15 anos e para tráfico internacional de 5 a 20 anos de prisão.

Por Darcianne Diogo do Correio Braziliense

Foto: Material cedido ao Correio / Reprodução Correio Braziliense