Pioneiras de Brasília contam como vivenciaram o começo da nova capital

Mulheres que viram de perto a capital do país nascer formam um grupo de pioneiras e relatam ao Correio as suas melhores lembranças daqueles tempos

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Por Mariana Saraiva e Fernanda Cavalcante — Em toda a história da construção e fundação de Brasília, homens como Lucio Costa, Israel Pinheiro e Bernardo Sayão são sempre apontados pelo merecido protagonismo. Em torno deles e de tantos outros que fizeram a nova capital da República nascer e se consolidar, entretanto, existem mulheres cuja presença marcante contribuiu para o sucesso da empreitada. Enquanto a cidade planejada era erguida, havia a mão dessas damas guerreiras, doces e, sobretudo, com espírito aventureiro escrevendo seus nomes na memória brasiliense.

Muitas dessas mulheres estão vivas, firmes e repletas de lembranças de um tempo nostálgico e inesquecível. Um grupo dessas pioneiras se reúne semestralmente, uma na casa das outras, e, juntas, têm uma coisa em comum: todas viram Brasília se transformar em uma metrópole e adquiriram um enorme e genuíno amor pela cidade. A líder do grupo, Elizabet Campos, 72 anos, há dois anos, resolveu reunir as amigas com o objetivo de preservar e resgatar a memória. O Correio foi a um dos encontros do grupo e conversou um pouco com cada uma dessas sete guerreiras.

Construindo a cidade

Elizabet Campos se mudou para a nova capital com 6 anos, antes da inauguração, em 1959, vindo de Goiânia. A família se instalou no Núcleo Bandeirante, onde a mãe da pioneira, Ana, foi dona do Restaurante do Povo. “Quando chegamos, os candangos não tinham nem um restaurante para comer, minha mãe fritava mandioca para Juscelino e Israel Pinheiro”, contou. “Eu, particularmente, tenho orgulho enorme porque a minha infância foi acompanhar as obras de Brasília e, aqui, fui construindo minha vida”, celebrou.

Na vanguarda feminina

Moema Leão, 78, chegou à cidade com 24 anos, em 1971, acompanhando o marido, que era diretor de uma empresa de engenharia. “Quando cheguei, eu me lembro que estava em um apartamento na 111 Sul e fiquei impressionada com o Planalto, porque eu vim do interior de Goiás, onde era tudo muito fechado, e tudo aquilo me deixou encantada”, lembra. “Naquela época, não era normal a mulher trabalhar, mas eu queria, e foi quando eu comecei a empreender com antiguidades e a vender peças para embaixadas, e depois fui trabalhar com decoração”, observou. “Na época, eu sentia que precisava ter a minha própria autonomia e minha turma. E eu consegui”, concluiu.

Construção e barro

Irany Poubel desembarcou no Planalto Central em 1960, antes da inauguração. O tio era deputado federal e a mãe, tesoureira dos Correios. “Eu me lembro que tudo era construção e barro e tive a impressão fantástica porque o jipe que nós estávamos atolou quando chegamos na 105 Sul e vi o asfalto brilhando com a água. Aquilo me deu uma impressão linda”, recordou. Poubel se formou em comunicação social e trabalhou durante grande parte da vida em embaixadas. Foi na capital que ela se casou, em 1975, e teve seus dois filhos.

Ex-carioca

Dulce Tannuri, 65, vive em Brasília desde 1960, quando o pai, Victor Tannuri, médico da Câmara dos Deputados, no Rio de Janeiro — antiga sede do governo —, foi transferido para a nova capital. “Morei toda a vida nessa cidade, construí minha família aqui, perdi minha cidadania carioca e me tornei brasiliense”, brinca. Ex-secretária do governo de Joaquim Roriz (1936-2018), ela atuou junto à Unesco no período de 2010 a 2012, trabalhando em projetos de implantação de educação integral e inclusão social. Atualmente, Dulce integra o Grupo Mulheres do Brasil, que reúne mais de 100 mil mulheres ao redor do mundo.

Hospital, doce lar

Marilda Porto, 83, foi casada com o primeiro médico de Brasília, Edson Porto, que chegou à nova capital em 1956, com 25 anos, atendendo um convite do próprio presidente Juscelino Kubitschek, para administrar um posto de saúde até que fosse inaugurado o primeiro hospital da região, o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO). Marilda, à época, tinha 18 anos e morou na unidade hospitalar por três anos para acompanhar o esposo. O local se tornou o Museu Vivo da Memória Candanga, onde é possível encontrar a mala que Marilda trouxe quando se mudou, e os objetos do consultório do marido. “Eu morei naquela primeira casa, e foi ali que eu tive a minha primeira filha”, relatou. “Eu vim de Rio Verde, Goiás, para cá, sem família e sem ninguém. O meu marido trabalhava muito e não tinha muito tempo, então, enfrentei muitos desafios”, detalhou.

Uma doce gratidão

Cláudia Jucá, 55, nasceu em Brasília em 1968. O pai, Jorge Ney Mendes de Mello, veio do Rio de Janeiro para trabalhar no Palácio do Planalto com Juscelino Kubitschek. Licenciada em artes plásticas pela Universidade de Brasília (UnB), ela se encontrou no modo artístico de confeitar bolos e doces e abriu a empresa Afeti. “A gente trabalha levando alegria aos brasilienses e aos que nos abraçaram”, declarou.

Tudo novo

Valdete Drummond mora na capital desde 1965, quando decidiu acompanhar a tia que saiu da Bahia rumo a Brasília em busca de trabalho. Dez anos depois, retornou a Bahia. Volto para Brasília, em 1975, casada com um pernambucano, com quem teve quatro filhos brasilienses. “Eu era muito nova, casei com 17 anos, então, para mim, era tudo novo. Não tinha muita vivência ou experiência para achar algo bom ou ruim, mas foi muito lindo e emocionante ver essa cidade nascer”, frisou.

*Estagiária sob a supervisão de Patrick Selvatti

Por Correio Braziliense  

Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press / Reprodução Correio Braziliense