Dengue DF “Estamos em estabilidade, com tendência à queda”, diz Lucilene Florêncio

De acordo com a secretária de Saúde, nos últimos 14 dias, o DF teve uma média de 14,4 mil casos prováveis por semana. Ao CB.Poder, ela anunciou a compra de equipamentos que vão diminuir o tempo de espera dos exames de plaquetas nos pacientes

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O Distrito Federal está entrando na estabilidade dos casos de dengue. Foi o que afirmou a secretária de Saúde do DF, Lucilene Florêncio. Durante participação no CB.Poder — programa que é uma parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília — ela disse que são 158,5 mil casos prováveis, desde o início do ano. “É importante dizer que nosso pico de registros foi na última semana de janeiro. A partir daí, observamos uma constância e, nesta última semana, notamos essa tendência à queda”, avaliou.

Às jornalistas Adriana Bernardes e Mila Ferreira, a secretária de Saúde também anunciou que o DF terá 185 novos equipamentos portáteis para medição de plaquetas, o ‘Point of Care’, que vai agilizar o atendimento nas unidades de saúde que estão recebendo pacientes com casos de dengue. Cerca de 50 equipamentos chegarão hoje.

Quais são os novos números de casos prováveis no DF?

Estamos em estabilidade, com tendência à queda. Foram 315 mil atendimentos, de 1º de janeiro até hoje, e nós temos o registro de 158,5 mil casos prováveis. É importante dizer que nosso pico de registros foi na última semana de janeiro. A partir daí, observamos uma constância e, nessa última semana, observamos essa tendência à queda (de casos de dengue). O DF foi a unidade da Federação com a maior intensificação de casos, no início do surto da dengue. Fomos a primeira a decretar estado de emergência pela doença, que depois se espalhou pelo país. Agora, estamos vivendo uma estabilidade na nossa curva.

Como está a média de casos?

Temos uma média de 14,4 mil casos por semana, mas chegamos a 22 mil, somente em sete dias. Nas duas últimas semanas, tivemos essa média de 14 mil casos. Em relação aos atendimentos, a média é de 4 mil por dia, entre as nossas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), UBSs (Unidades Básicas de Saúde), tendas de hidratação e hospitais.

Estão previstas novas tendas? Quando elas devem começar a funcionar?

Estamos nesse caminho de sempre ampliar o acesso à população e de estar notificando e investigando todos os óbitos que venham a acontecer. Isso (as tendas) é um reforço da Vigilância Epidemiológica. Hoje, temos nove tendas, que atendem das 7h às 19h. Serão 11 novas estruturas. A princípio, todas funcionariam até as 19h, mas três delas vão funcionar 24 horas, nas regiões de saúde Sul, Centro e Centro-Sul, considerando o menor número de equipamentos e o grande número de casos sendo atendidos. Vamos assinar o contrato com a empresa vencedora do certame e, a partir disso, ela terá 48 horas para entregar as tendas. Isso se junta a toda a nossa rede, para que a gente atenda bem a população.

Temos a sensação, pelo número de mortes, de que a dengue está mais letal este ano. É isso?

O fato é que a população do DF entrou em contato com o sorotipo atual (o dois) há 10 anos. Então, não tínhamos uma memória imunológica. Por isso, ele vai circular e encontrar uma população suscetível à infecção. Em relação aos óbitos, podemos evidenciar que eles estão acontecendo em quem tem comorbidades. Em mais de 80% das mortes que foram investigadas, encontramos quadros de hipertensão e diabetes, além de estarem na faixa etária acima dos 60 anos. Podemos dizer que é um sorotipo que apresenta maior agressividade, sendo capaz de levar a formas graves da dengue.

Como está a adesão à vacina? Quando podemos esperar que a faixa etária seja ampliada novamente?

O DF foi a primeira unidade que iniciou a vacinação, com 71,8 mil doses. Atualmente, estamos com 44,5 mil aplicações em crianças e adolescentes na faixa etária de 10 a 14 anos. A nota técnica do Programa Nacional de Imunização (PNI) prevê, atualmente, esse público-alvo. Como recebemos a vacina do PNI, precisamos registar a aplicação do imunizante nessa faixa etária, para que possamos receber a segunda dose, que é aplicada 90 dias após a primeira. A vacina oferece imunidade contra os quatro sorotipos e, a médio e longo prazo, é o caminho do país. É uma doença que está em nosso território há mais de 40 anos e temos que celebrar a chegada da vacina. Tanto o Butantan quanto a Fiocruz estão trabalhando para que, em 2025, tenhamos mais de 20 milhões de doses produzidas. Atualmente, ela está aquém da nossa necessidade. Vamos começar com essa faixa etária e pedimos aos pais que têm filhos entre 10 e 14 anos, que procurem uma das nossas unidades. Temos 64 salas de vacina e estamos, nas escolas, pedindo que os pais levem o cartão de vacina, para que possamos, com a equipe de saúde, fazer a atualização. Também temos visitas programadas às unidades de ensino, geralmente no fim da aula, para que, com a autorização dos pais, a gente possa vacinar os alunos.

Temos um déficit, na rede do Distrito Federal, na quantidade de agentes trabalhando no combate à dengue. O que a SES-DF está fazendo para suprir essa necessidade?

Hoje, temos 450 agentes de cargos efetivos e temos um concurso vigente, com cadastro de reserva. Além disso, temos servidores cedidos pelo Ministério da Saúde ao DF. Com isso, temos em torno de 1,2 mil agentes para atender 1,5 milhão de imóveis. Esse monitoramento é constante, mas é verdade que esse recurso humano, vindo do Ministério da Saúde, vai se aposentar e precisaremos fazer essa recomposição. Precisamos de 1,5 mil agentes de Vigilância Ambiental e, atualmente, temos 800. O ideal é que fique um para 800 a 1 mil imóveis.

Muitas pessoas estão com medo do agravamento da dengue. O que a senhora diria para elas?

O diagnóstico de dengue é, eminentemente, clínico. Hoje, temos um teste rápido na nossa rede, que é de triagem. Podemos ter casos em que o teste rápido dá negativo, mas a pessoa está com a doença. Porém, temos o PCR, com uma segurança maior, e podemos realizá-lo até o quinto dia dos sintomas. O que podemos dizer à população é que a dengue tem sinais e sintomas clássicos e que, no olhar de quem está atendendo o paciente, a dengue tem que estar no rol das hipóteses diagnósticas, não se limitando no resultado de um teste rápido.

Como é o equipamento que a SES-DF adquiriu, em parceria com a Organização Pan-americana de Saúde (Opas), e como ele vai ajudar no diagnóstico da dengue?

Conseguimos fazer a aquisição de 185 equipamentos portáteis, chamados de ‘Point of Care’, que servem para a realização de hemograma e contagem de plaquetas, e vamos colocá-los nas UBSs e tendas, pois, ao rever os processos de trabalho, identificamos que havia um tempo de espera elevado pelo exame, aguardando em torno de três a quatro horas. Com isso, a condução clínica do paciente fica comprometida na questão da celeridade. Cerca de 50 dos equipamentos chegam amanhã (hoje). Eles vão dar celeridade ao diagnóstico de gravidade do paciente, pois a previsão é que o exame fique pronto em 30 minutos, com a utilização do equipamento, facilitando o cuidado com o cidadão.

O banco de sangue do Hemocentro está com estoque baixo. Qual a importância da doação para pacientes que estão com baixo índice de plaquetas?

Podemos ter, além da queda de plaquetas, outros sinais de que o paciente está com um quadro hemorrágico da dengue, como dores abdominais intensas, vômitos e falta de capacidade de ingerir líquidos, que podem levar a uma desidratação e a um choque hipovolêmico (perda de grande quantidade de líquidos e sangue). A doação de sangue é um ato de amor, em todos os momentos da saúde no mundo e, para que a gente consiga uma concentração adequada de plaquetas, é necessário uma quantidade maior de doadores. Isso traz um importante alerta, no sentido de que os doadores permaneçam e entendam que, neste momento, precisamos aumentar a coleta, pois somente um doador não é suficiente para que a gente consiga o concentrado de plaquetas. Sem dúvida, os estoques precisam ser reforçados e pedimos à população que se sensibilize com a causa.

O que é o choque de dengue e quando ele acontece?

A dengue provoca um processo inflamatório generalizado e ocorre um extravasamento de líquido, ou seja, uma diminuição do volume circulante, o chamado choque hipovolêmico, fazendo com que ocorra uma falência múltipla dos órgãos, pelo corpo não estar conseguindo bombear o sangue, para manter a rigidez do ser humano. Por isso, aos primeiros sintomas, orientamos que a população procure a rede pública, pois o diagnóstico precoce é decisivo para evitar esse quadro.

Essa epidemia de dengue é a maior que o DF enfrentou. Qual lição ela está deixando, não só para o poder público, mas para a população em geral?

Temos que, primeiramente, entender as questões de hábitos de vida e comportamentais, no sentido de ser vigilante no descarte de resíduos sólidos no local correto, saber o horário de colocar a poda verde na rua. Temos que entender que as alterações climáticas são fruto do que nós fizemos no passado, por isso, o ser humano tem que trabalhar a favor da natureza, na sua preservação e no seu cuidado. A dengue é uma arbovirose que precisa de uma ação que seja permanente, que se torne a nossa imunização.

Por Arthur de Souza do Correio Braziliense

Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press / Reprodução Correio Braziliense